Durante demasiado tempo, a Europa habituou-se a viver num mundo confortável. Os Estados Unidos garantiam grande parte da sua segurança, a Rússia fornecia energia barata e a China produzia a baixo custo muito do que os europeus consumiam. Ao mesmo tempo, as grandes revoluções tecnológicas aconteciam sobretudo do outro lado do Atlântico. O modelo funcionou enquanto o mundo permitiu. Hoje, já não permite.
A guerra na Ucrânia mostrou, da forma mais dura, que a paz europeia não é um dado adquirido. A Rússia continua a testar os limites do Ocidente e os acontecimentos junto às fronteiras da NATO recordam que aquilo que começou como uma invasão de um país soberano tem consequências que ultrapassam largamente o território ucraniano. A distância entre a guerra e a União Europeia é cada vez menor.
Mas seria um erro reduzir o problema europeu à Defesa. A dependência tem muitas faces.
Na Energia, a invasão da Ucrânia obrigou a Europa a perceber, demasiado tarde, os riscos de colocar uma parte importante do seu abastecimento nas mãos de Moscovo. Na Defesa, revelou décadas de desinvestimento e uma excessiva dependência dos Estados Unidos. Na Tecnologia, a situação não é muito diferente.
Agora é a Inteligência Artificial que deve fazer soar os alarmes. A Europa corre o risco de assistir a mais uma revolução tecnológica a partir da bancada. Tem excelentes universidades, investigadores, empresas e capacidade financeira, mas continua atrás dos Estados Unidos e da China na criação das grandes plataformas, na capacidade computacional e na transformação da inovação em empresas globais.
Não se trata de defender uma Europa fechada sobre si própria. Seria absurdo. A relação transatlântica continua a ser essencial, a NATO permanece fundamental para a segurança do continente e o comércio internacional é indispensável à prosperidade europeia. Autonomia não significa isolamento. Significa capacidade de escolha. É precisamente essa capacidade que a Europa precisa de recuperar.
Portugal também tem de perceber esta mudança. Um país pequeno não ganha soberania afastando-se da União Europeia; ganha-a ajudando a construir uma Europa mais forte. Isso implica investimento em defesa, energia, ciência, tecnologia e Inteligência Artificial. Implica igualmente perceber que competitividade não é uma palavra reservada aos economistas: é o que permite criar riqueza suficiente para financiar o Estado Social que os europeus querem preservar.
Há ainda uma mudança política que não pode ser ignorada. Quando os cidadãos sentem que as instituições não conseguem responder à insegurança, ao custo de vida, à imigração descontrolada ou à perda de competitividade, procuram respostas noutros lugares. Os extremos crescem também nos espaços deixados vazios pela incapacidade dos partidos tradicionais para enfrentar problemas reais. Ignorá-los ou desvalorizar as preocupações dos eleitores não os fará desaparecer.
A Europa construiu um dos maiores espaços de liberdade, democracia e prosperidade do mundo. Mas preservar esse património exige mais do que proclamar valores. Exige capacidade para os defender.
O mundo mudou. É mais instável, mais competitivo e mais perigoso. A Europa pode continuar a esperar que outros garantam a sua segurança, forneçam a sua tecnologia e resolvam as suas vulnerabilidades. Ou pode finalmente assumir as responsabilidades que correspondem ao seu peso económico e político.