Hoje, segunda-feira, escrevo de Banguecoque, onde começa o Gastech, um dos maiores eventos do mundo dedicado ao gás natural, LNG, hidrogénio, soluções de baixo carbono, eletrificação e Inteligência Artificial aplicada à energia. No passado sábado, num jantar com executivos de vários países e CEO mundiais, a conversa passou pela Inteligência Artificial, energia, investimento e redes de fornecimento. Até que um colega alemão resumiu a inquietação da mesa: “Podemos ter encomendas, tecnologia e capital, mas onde vamos encontrar as pessoas?”
A pergunta expõe uma fragilidade que a Europa ainda não resolveu.
A Europa quer reindustrializar-se. Quer reduzir dependências, reforçar a Defesa, que também depende da capacidade industrial, e recuperar autonomia estratégica. Concordo. Mas quem vive diariamente a indústria sabe que há uma parte da equação subestimada.
Uma fábrica não se constrói com uma estratégia em PowerPoint. Constrói-se com pessoas.
Soldadores, eletricistas, mecânicos, técnicos de manutenção, operadores especializados, engenheiros de processo. Pessoas que sabem instalar, testar, reparar e perceber, pelo som de uma máquina, que algo não está bem.
Segundo um Eurobarómetro da Comissão Europeia de 2026, 46% das PME têm dificuldade em encontrar trabalhadores com as competências certas. E a Comissão estima que a força de trabalho da UE possa encolher até 18 milhões de pessoas até 2050.
Em Portugal, os números revelam um desequilíbrio curioso.
O Education and Training Monitor 2025, com dados comparáveis de 2023, mostra que 28,9% dos estudantes do Ensino Superior estavam em Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, acima dos 26,9% da média europeia. No Ensino Profissional de nível médio, estávamos abaixo: 30,5% contra 36,3%.
Durante décadas transmitimos aos jovens a ideia de que o sucesso se media por um diploma universitário e por uma carreira longe da fábrica. O Ensino Profissional tornou-se demasiadas vezes uma segunda escolha. Agora descobrimos uma evidência: não existe economia digital sem economia física.
A resposta exige mudanças: valorizar e remunerar melhor as profissões técnicas; aproximar escolas e empresas; e criar condições para que portugueses qualificados que emigraram regressem. E temos de fazer melhor com a imigração. Segundo o INE, em 2025 Portugal tinha quase 1,6 milhões de residentes de nacionalidade estrangeira, 14% da população. O relatório da Comissão Europeia sobre Portugal de 2026 revela outro paradoxo: a sobrequalificação entre trabalhadores nascidos no estrangeiro era 46,8%, contra 37% na UE; entre portugueses, 14,1%.
Isto incomoda-me. Não podemos dizer que faltam competências e desperdiçar as de quem já escolheu viver cá. Precisamos de reconhecer qualificações mais depressa, acelerar a integração profissional e atrair e reter talento.
A Inteligência Artificial e a automação aliviarão parte da escassez de mão de obra. Mas não substituirão a necessidade de técnicos qualificados para instalar, supervisionar, manter e reparar sistemas industriais cada vez mais complexos.
A Europa pode financiar fábricas, protegê-las e subsidiá-las. Só não consegue decretar as pessoas que sabem fazê-las funcionar.
Reindustrializar sem pessoas seria apenas trocar uma dependência por outra.
Talvez a próxima grande escassez europeia não seja de capital, energia ou tecnologia.
Seja de quem saiba fazer.