Dir-se-ia que a Europa está a atravessar um período de crise. Numa boa parte da UE, os cidadãos parecem ter perdido a confiança na classe política e nas instituições. A razão é clara: falta de resposta satisfatória às questões sociais consideradas essenciais. Nestas incluem-se a habitação a preços acessíveis, o mau funcionamento crescente dos serviços públicos, sobretudo nas áreas da Saúde, da Educação, da Justiça e da Segurança, e o oportunismo político. De uma maneira mais genérica, a tudo isto soma-se o impacto negativo do aumento do custo de vida, que aparece ligado a decisões tomadas no outro lado do Atlântico. Na perspetiva de muitos cidadãos, os dirigentes parecem carecer de sensibilidade e de coragem.Quando a esperança se perde, a democracia não colapsa – deteriora-se silenciosamente. O pensador Byung-Chul Han, alemão de origem coreana, diz que as nossas sociedades atingiram uma fase de “cansaço”: os cidadãos estão saturados, esmagados e alienados pelo fluxo digital. Sentem-se isolados e incapazes de mobilizar a energia necessária para proceder às mudanças que a política exige. A incompetência das instituições e a incoerência dos políticos empurram os cidadãos para o egocentrismo, para a gestão solitária da sobrevivência, para a retirada da esfera pública. Quando o Estado falha, cada indivíduo fecha-se no seu próprio microcosmo. A política deixa de ser um espaço onde se constrói a esperança. É, para muitos, apenas um ruído distante.A desinformação digital é um dos instrumentos da erosão democrática. Algoritmos otimizados para maximizar reações emocionais e conteúdos fabricados por Inteligência Artificial corroem a confiança pública de forma estrutural. Uma sondagem do Eurobarometer Especial 568 (2025) não deixa margem para dúvidas: 79% dos europeus receiam que os eleitores votem com base em informações falsas e 70% temem interferências estrangeiras. A credibilidade dos parlamentos e governos nacionais ronda os 35%. No caso dos partidos, o valor é ainda mais baixo. Em Portugal, a União Europeia mantém algum crédito, mas a Assembleia da República e os partidos seguem a mesma trajetória descendente que se verifica noutros Estados europeus.Em várias sociedades, a imigração, gerida durante anos sem uma estratégia coerente, tornou-se o catalisador da ansiedade social. Com o tempo e as entradas em massa, a inquietação transformou-se em ressentimento. É neste terreno que prosperam o Rassemblement National (França), a AfD (Alemanha), os Fratelli d’Italia, o Vox (Espanha) e o Chega (Portugal). Crescem porque exploram o vazio deixado pelos partidos tradicionais – mas não oferecem alternativas realistas. Apenas, demagogia. Além disso, ignoram, de um modo geral, o eixo que determina a viabilidade e a autonomia do Estado moderno: a soberania tecnológica. Discutem símbolos, fronteiras e identidades enquanto a infraestrutura que sustenta a democracia está nas mãos de terceiros.A Europa opera, hoje, com base em sistemas digitais que não domina. Soberania tecnológica significa que um Estado controla os elementos essenciais ao seu bom funcionamento: dados, redes, software, hardware, plataformas de IA, fontes de informação sobre os grandes fenómenos de impacto global. A Europa está longe de dominar estes pilares.O risco não é teórico. Se amanhã o acesso aos serviços da Microsoft ou da Google fosse cortado por decisão externa – mesmo que apenas por um curto período –, empresas, hospitais, escolas, tribunais e a Administração Pública deixariam de funcionar. Se os veículos elétricos chineses fossem paralisados remotamente por um motivo político, a logística e o quotidiano entrariam em disrupção.Uma democracia que depende de infraestruturas digitais controladas por potências estrangeiras não é soberana: é simplesmente vulnerável. Esta vulnerabilidade não resulta de fatalidade geopolítica, mas de décadas de omissão política, da atenção dada a falsas prioridades pelo ecossistema político europeu.O Gaia-X, lançado em 2019, é a tentativa europeia de recuperar algum controlo. Não é um “Google europeu”. É fundamentalmente um quadro de regras, certificações e padrões. Em paralelo, o Regulamento sobre o Desenvolvimento da Computação em Nuvem e da IA procura criar capacidade física – centros de dados, infraestruturas comuns, requisitos para a Administração Pública. O Gaia-X define os protocolos; o Regulamento tenta construir o suporte material.Mas estes passos são insuficientes. São lentos, tímidos e decididos por gentes das leis e não das engenharias, das matemáticas ou da economia. Não reduzem, no curto prazo, a dependência do hardware, cabos submarinos, semicondutores e software de base provenientes do exterior. E o problema político é ainda mais grave: são projetos órfãos, esquecidos, tal como aconteceu ao Relatório Draghi (2024). Nem os partidos tradicionais, nem os populistas tratam a soberania tecnológica como prioridade. Preferem o conforto das narrativas fáceis ao esforço de construir a capacidade estratégica que o presente e o futuro exigem.Assim, a Europa continua refém – não por imposição, mas por políticas erradas. A submissão tecnológica não é o pano de fundo do cansaço democrático: é, todavia, uma das suas causas mais relevantes. E esta situação arrasta o descrédito da democracia e da política.Ainda existem reservas de resiliência – visíveis, por exemplo, na confiança relativa que a União Europeia mantém em países como Portugal. Mas o futuro das nossas democracias exige decisões claras e urgentes em duas frentes: na dimensão humana – habitação, imigração, serviços públicos, governação funcional, proteção social dos mais vulneráveis e promoção de uma cultura democrática; e na dimensão tecnológica – acelerar o Gaia-X, construir uma nuvem soberana, investir em infraestruturas de ponta, mobilizar recursos financeiros e técnicos a um nível supranacional.O cansaço ou a indiferença dos cidadãos e a submissão tecnológica dos Estados são as duas faces da mesma crise. A incompetência política gera a atomização social; a atomização social alimenta a incompetência política e o populismo. Este é o círculo vicioso que teremos de romper.