A Europa e a democracia: a dupla crise da indiferença e da dependência

Victor Ângelo

Conselheiro em Segurança Internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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Dir-se-ia que a Europa está a atravessar um período de crise. Numa boa parte da UE, os cidadãos parecem ter perdido a confiança na classe política e nas instituições. A razão é clara: falta de resposta satisfatória às questões sociais consideradas essenciais. Nestas incluem-se a habitação a preços acessíveis, o mau funcionamento crescente dos serviços públicos, sobretudo nas áreas da Saúde, da Educação, da Justiça e da Segurança, e o oportunismo político. De uma maneira mais genérica, a tudo isto soma-se o impacto negativo do aumento do custo de vida, que aparece ligado a decisões tomadas no outro lado do Atlântico. Na perspetiva de muitos cidadãos, os dirigentes parecem carecer de sensibilidade e de coragem.

Quando a esperança se perde, a democracia não colapsa – deteriora-se silenciosamente. O pensador Byung-Chul Han, alemão de origem coreana, diz que as nossas sociedades atingiram uma fase de “cansaço”: os cidadãos estão saturados, esmagados e alienados pelo fluxo digital. Sentem-se isolados e incapazes de mobilizar a energia necessária para proceder às mudanças que a política exige. A incompetência das instituições e a incoerência dos políticos empurram os cidadãos para o egocentrismo, para a gestão solitária da sobrevivência, para a retirada da esfera pública. Quando o Estado falha, cada indivíduo fecha-se no seu próprio microcosmo. A política deixa de ser um espaço onde se constrói a esperança. É, para muitos, apenas um ruído distante.

A desinformação digital é um dos instrumentos da erosão democrática. Algoritmos otimizados para maximizar reações emocionais e conteúdos fabricados por Inteligência Artificial corroem a confiança pública de forma estrutural. Uma sondagem do Eurobarometer Especial 568 (2025) não deixa margem para dúvidas: 79% dos europeus receiam que os eleitores votem com base em informações falsas e 70% temem interferências estrangeiras. A credibilidade dos parlamentos e governos nacionais ronda os 35%. No caso dos partidos, o valor é ainda mais baixo. Em Portugal, a União Europeia mantém algum crédito, mas a Assembleia da República e os partidos seguem a mesma trajetória descendente que se verifica noutros Estados europeus.

Em várias sociedades, a imigração, gerida durante anos sem uma estratégia coerente, tornou-se o catalisador da ansiedade social. Com o tempo e as entradas em massa, a inquietação transformou-se em ressentimento. É neste terreno que prosperam o Rassemblement National (França), a AfD (Alemanha), os Fratelli d’Italia, o Vox (Espanha) e o Chega (Portugal). Crescem porque exploram o vazio deixado pelos partidos tradicionais – mas não oferecem alternativas realistas. Apenas, demagogia. Além disso, ignoram, de um modo geral, o eixo que determina a viabilidade e a autonomia do Estado moderno: a soberania tecnológica. Discutem símbolos, fronteiras e identidades enquanto a infraestrutura que sustenta a democracia está nas mãos de terceiros.

A Europa opera, hoje, com base em sistemas digitais que não domina. Soberania tecnológica significa que um Estado controla os elementos essenciais ao seu bom funcionamento: dados, redes, software, hardware, plataformas de IA, fontes de informação sobre os grandes fenómenos de impacto global. A Europa está longe de dominar estes pilares.

O risco não é teórico. Se amanhã o acesso aos serviços da Microsoft ou da Google fosse cortado por decisão externa – mesmo que apenas por um curto período –, empresas, hospitais, escolas, tribunais e a Administração Pública deixariam de funcionar. Se os veículos elétricos chineses fossem paralisados remotamente por um motivo político, a logística e o quotidiano entrariam em disrupção.

Uma democracia que depende de infraestruturas digitais controladas por potências estrangeiras não é soberana: é simplesmente vulnerável. Esta vulnerabilidade não resulta de fatalidade geopolítica, mas de décadas de omissão política, da atenção dada a falsas prioridades pelo ecossistema político europeu.

O Gaia-X, lançado em 2019, é a tentativa europeia de recuperar algum controlo. Não é um “Google europeu”. É fundamentalmente um quadro de regras, certificações e padrões. Em paralelo, o Regulamento sobre o Desenvolvimento da Computação em Nuvem e da IA procura criar capacidade física – centros de dados, infraestruturas comuns, requisitos para a Administração Pública. O Gaia-X define os protocolos; o Regulamento tenta construir o suporte material.

Mas estes passos são insuficientes. São lentos, tímidos e decididos por gentes das leis e não das engenharias, das matemáticas ou da economia. Não reduzem, no curto prazo, a dependência do hardware, cabos submarinos, semicondutores e software de base provenientes do exterior. E o problema político é ainda mais grave: são projetos órfãos, esquecidos, tal como aconteceu ao Relatório Draghi (2024). Nem os partidos tradicionais, nem os populistas tratam a soberania tecnológica como prioridade. Preferem o conforto das narrativas fáceis ao esforço de construir a capacidade estratégica que o presente e o futuro exigem.

Assim, a Europa continua refém – não por imposição, mas por políticas erradas. A submissão tecnológica não é o pano de fundo do cansaço democrático: é, todavia, uma das suas causas mais relevantes. E esta situação arrasta o descrédito da democracia e da política.

Ainda existem reservas de resiliência – visíveis, por exemplo, na confiança relativa que a União Europeia mantém em países como Portugal. Mas o futuro das nossas democracias exige decisões claras e urgentes em duas frentes: na dimensão humana – habitação, imigração, serviços públicos, governação funcional, proteção social dos mais vulneráveis e promoção de uma cultura democrática; e na dimensão tecnológica – acelerar o Gaia-X, construir uma nuvem soberana, investir em infraestruturas de ponta, mobilizar recursos financeiros e técnicos a um nível supranacional.

O cansaço ou a indiferença dos cidadãos e a submissão tecnológica dos Estados são as duas faces da mesma crise. A incompetência política gera a atomização social; a atomização social alimenta a incompetência política e o populismo. Este é o círculo vicioso que teremos de romper.

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