A escassez do século XXI

Rita Alves Feio

Psicóloga organizacional

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Cada vez mais, conseguir estar no presente tornou-se um luxo, um privilégio. Há uns anos, o luxo era ter mais tempo. Hoje, o desafio é conseguir dedicar a atenção plena a uma tarefa durante um período prolongado.

A capacidade de atenção e de foco está em vias de extinção. Vivemos rodeados de ferramentas e estímulos que nos incentivam e treinam para a incapacidade de estar concentrados em algo durante um longo período. Estas captam a nossa atenção de forma automática. Tanto no trabalho, como na vida pessoal, somos bombardeados com notificações, e-mails, mensagens instantâneas, alertas de notícias, plataformas colaborativas e redes sociais. Nunca foi tão fácil comunicar, colaborar e pesquisar, mas nunca foi tão difícil concentrarmo-nos.

Nas organizações, o desafio não é apenas gerir o tempo, mas também, gerir a atenção das pessoas. O foco continua a estar na presença, na velocidade da resposta, na disponibilidade imediata e isso retira competências fulcrais do ser humano: capacidade de pensar, de analisar e refletir. É uma dor transversal às organizações, independentemente do setor, a crescente dificuldade de concentração num dia de trabalho. Alternar entre tarefas não ajuda à produtividade, reuniões interrompidas por notificações diminui a eficiência, equipas constantemente reativas perdem capacidade estratégica.

Existem consequências individuais e organizacionais à diminuição da capacidade de atenção. Mais erros, mais acidentes, menos eficácia. No entanto, a atenção não é apenas uma questão de produtividade, mas uma questão de saúde e bem-estar. As exigências cognitivas estão cada vez mais elevadas em contexto laboral, o cérebro permanece em estado de alerta, aumentando a fadiga cognitiva e a sensação de sobrecarga. Além disso, há menos capacidade de recuperação, porque estamos sempre a receber informação e isso aumenta a dificuldade em desligar. Terminar o dia exausto com a sensação de que não se terminaram tarefas ou não se avançou é cada vez mais comum.

Junho é um mês de fecho de projetos e de temas porque se aproxima o período das férias, de rotação nas equipas. É ainda um mês de elevada pressão e exigência. A ideia era que a tecnologia nos libertasse tempo, mas ainda não conseguimos chegar a este ponto. A sensação atual é de mais informação, mais urgência, mais estímulo e, portanto, mais cansaço.

As organizações focam-se nos recursos financeiros, nas infraestruturas e na retenção de talento. Talvez tenham de alargar esse foco na proteção da atenção das equipas, garantindo espaço de concentração e de análise. Criar boas-práticas e reduzir reuniões desnecessárias, criar momentos sem interrupções, clarificar prioridades, incentivar o trabalho assíncrono.

Vivemos num mundo que disputa a nossa atenção. Quando a conseguirmos proteger ganhamos todos: pessoas, organizações e sociedade.

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