A escala

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Há um momento, à chegada a Lisboa, que define melhor a cidade do que qualquer campanha do Turismo de Portugal: a fila para o controlo de fronteira no aeroporto Humberto Delgado, onde o visitante que veio descobrir a luz e a doçura portuguesas começa a estada com horas de espera. A primeira impressão de Portugal é, cada vez mais, a de uma infraestrutura que pede desculpa por existir. E não é por falta de aviso. A própria Organização Internacional da Aviação Civil classifica o aeroporto como congestionado desde 2018 e o questionário de qualidade de serviço deu-lhe, em 2023, uns modestos 3,5 em 5. A ANA prefere também, apesar da imensa rentabilidade do aeroporto, ainda atafulhar o pouco espaço de circulação com quiosques de venda de conservas e pastéis de nata. E as máquinas de leitura dos passaportes eletrónicos, que nunca funcionaram bem desde que instaladas há mais de uma década e meia, continuam a funcionar mal. É preciso formação avançada em pressão de pulso para se ler o passaporte, tornando o que deveriam ser cinco segundos num demorado exercício de absurdo, aparentemente irresolúvel.

Os números explicam o resto. Em 2024, a Portela processou 35,1 milhões de passageiros, novo recorde, numa infraestrutura concebida para muito menos. O novo aeroporto de Alcochete, decidido em 2024, não abrirá antes de 2034, e a própria concessionária admite que 2037 é a data realista. Até lá, vive-se de remendos: mais dois slots por dia em 2026, a promessa de subir dos atuais 38 para 45 movimentos por hora algures no futuro. Numa cidade que quer ser porta da Europa atlântica entra-se e sai-se hoje por uma fechadura.

A pressão não fica no aeroporto. Em 2025, a Área Metropolitana de Lisboa recebeu 9,5 milhões de hóspedes e 21,3 milhões de dormidas. O concelho de Lisboa, com cerca de 550 mil residentes, concentra sozinho mais de um quarto de todos os hóspedes do país. E aqui a aritmética torna-se social: segundo um relatório do Conselho Europeu de outubro de 2025, um residente de Lisboa destina, em média, 116% do salário médio ao arrendamento – o valor mais alto da União Europeia, à frente de Madrid (74%) ou Viena (37%). O alojamento local fez o resto, esvaziando Alfama, Mouraria ou a Bica dos seus habitantes para os encher com quem fica três noites.

Nada disto é uma fatalidade. Outras cidades, que descobriram o problema antes de nós, já agem. Barcelona decidiu não renovar as licenças dos seus 10 mil apartamentos turísticos até 2028, devolvendo-os à habitação. Veneza cobra entrada aos visitantes de um dia nos períodos de maior afluência. Amesterdão limita os navios de cruzeiro e subiu a taxa turística para 12,5% da estada. Atenas marcou um teto diário de visitantes na Acrópole. Nenhuma destas medidas é hostil ao turista. Todas reconhecem, simplesmente, que um destino tem uma escala, e que ignorá-la é a forma mais segura de o destruir.

Lisboa não precisa de menos visitantes por desconfiança, mas de uma relação proporcionada entre o que oferece e o que aguenta: estadias mais longas, gasto mais alto, menos rotatividade, uma fronteira aérea à altura da cidade que serve. O aumento do turismo é uma das melhores coisas que aconteceram à economia portuguesa neste século. Resta garantir que possa continuar a sê-lo, sem destruir o que o motiva e tratando de forma justa visitantes e residentes.

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