A discussão inútil sobre as causas das alterações climáticas

Bernardo Ivo Cruz

Professor convidado UCP/UNL/UÉ

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As tempestades que atingiram Portugal no início deste ano provocaram mortes, destruição e prejuízos de centenas de milhões de euros. E mal começou a recuperação, sucedem-se ondas de calor, com temperaturas superiores a 40 graus, noites tropicais e alertas vermelhos emitidos pelo IPMA.

Em poucos meses, experimentámos eventos climáticos extremos cada vez mais violentos e frequentes.

Apesar disso, continua a haver quem prefira discutir uma questão que, do ponto de vista prático, é cada vez mais irrelevante: afinal, as alterações climáticas são ou não provocadas pela atividade humana? A ciência já respondeu e o consenso científico internacional inequívoco diz que o aquecimento global observado nas últimas décadas resulta, em larga medida, das emissões de gases com efeito de estufa produzidas pela ação humana. Esta não é uma crença, nem uma posição ideológica. É a conclusão mais robusta que o conhecimento científico hoje permite.

Mas imaginemos que esse consenso estava errado. Imaginemos que as alterações climáticas correspondiam apenas a um ciclo natural da Terra. O que mudaria? Nada! Nenhum oceano decide arrefecer. Nenhuma floresta organiza planos de prevenção de incêndios. Nenhum glaciar assina acordos internacionais. A natureza não gere as crises. Limita-se a responder às leis da física.

No planeta há apenas uma espécie capaz de compreender o fenómeno, antecipar consequências, desenvolver tecnologia, alterar padrões de consumo, adaptar infraestruturas, cooperar internacionalmente e reduzir riscos. Essa espécie somos nós.

A inteligência humana distingue-se precisamente pela capacidade de antecipar e agir. É essa capacidade que explica a medicina, a engenharia, a proteção civil ou a construção de barragens.

Não esperamos que um problema prove, para além de qualquer dúvida, a sua origem antes de decidir enfrentá-lo. Por que haveria de ser diferente com o clima?

Melhorar a eficiência energética reduz custos para famílias e empresas. Produzir energia renovável diminui dependências externas e reforça a segurança nacional. Preparar cidades para ondas de calor salva vidas. Proteger florestas reduz incêndios e preserva recursos hídricos. Adaptar a agricultura aumenta a segurança alimentar. Tudo isto continua a ser racional mesmo para quem, por hipótese, recusasse a explicação científica dominante.

A verdadeira discussão não é sobre culpa. É sobre responsabilidade. Enquanto alguns continuam presos a debates estéreis sobre a origem do problema, o problema continua a evoluir. O clima não espera pelo fim das nossas discussões. As temperaturas não suspendem a sua subida até existir unanimidade política. As cheias e as secas não aguardam pela última publicação nas redes sociais.

As sociedades mais inteligentes nunca foram aquelas que reagiram depois de terem certezas absolutas. Foram aquelas que souberam agir perante evidência. Mesmo que, por absurdo, a Humanidade não tivesse provocado as alterações climáticas, e tudo indica que provocou, continuaria a ser a única capaz de responder à crise.

A discussão sobre as causas pode interessar à História da Ciência. A responsabilidade de encontrar soluções pertence, inevitavelmente, à História da Humanidade. E o tempo que perdemos a debater a primeira é tempo que roubamos à segunda.

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