Na semana em que uma sondagem voltou a colocar o PS à frente das intenções de voto, parte do partido concentrou-se em discutir o que fazer se perder. Carlos César admitiu a hipótese de um bloco central; Ferro Rodrigues defendeu-o e António Barreto juntou-se ao coro. Carneiro afastou-o e pediu reciprocidade. Fez bem: o principal prejudicado por essa solução seria o próprio Partido Socialista.
As próximas eleições legislativas, se nada as precipitar, serão em 2029. Com o PS a liderar a média das sondagens desde março e três dos quatro barómetros de outubro, ser o PS a convocar para o debate o cenário em que perde é contraproducente. E fazê-lo a dois anos e meio das urnas é abdicar do capital que as sondagens lhe dão para se consolidar como alternativa e concentrar-se no cenário de uma derrota preventiva.
O calendário não podia ser mais errado. Em menos de quinze dias, arrancam os Estados Gerais do PS, convocados para construir uma alternativa de governo. Que sentido faz pedir à sociedade civil que ajude o PS a distinguir-se do PSD e, ao mesmo tempo, discutir uma coligação entre ambos?
Portugal teve um único bloco central. Nasceu de uma emergência: FMI, inflação acima de 20% e adesão à CEE por concluir. Cumpriu o seu papel, mas deixou uma pesada fatura eleitoral. O PS caiu de 36% para 21% em 1985, enquanto o recém-criado PRD obteve 18%. O PSD alcançou a maioria absoluta em 1987 e os socialistas só regressaram ao Governo em 1995. A diferença é que, em 1983, a coligação respondia a uma crise que todos reconheciam, enquanto a hipótese que agora se discute teria como única razão de ser um adversário, e arriscaria transformá-lo na única alternativa efetiva.
Colin Crouch, em Post-Democracy, descreveu como a democracia pode conservar eleições e alternância no poder enquanto as grandes decisões se concentram em círculos cada vez mais restritos de elites. Quando os partidos tradicionais deixam de oferecer escolhas reconhecíveis, abrem espaço a quem promete não apenas governar de outra maneira, mas romper com o próprio sistema. Na Áustria, coligações entre sociais-democratas e conservadores acompanharam a subida da direita radical, de 9,7% em 1986 para 26,9% em 1999, até vencer as eleições em 2024. Na Alemanha, que António Barreto dá como exemplo, a AfD subiu de 4,7% para 12,6% entre 2013 e 2017, durante uma grande coligação. Hoje, com Merz a governar com o SPD, chegou aos 30% em alguns barómetros.
Em França, o bloco central fez-se partido com Macron, que recrutou à esquerda e à direita. Os partidos que alternavam no poder esvaziaram-se. Em 2022, a candidata socialista teve 1,75% e a dos Republicanos 4,78%. Nas sondagens recentes, Marine Le Pen lidera com uma vantagem expressiva, e a popularidade de Macron está no nível mais baixo desde 2017. A convergência do centro não explica sozinha a ascensão da extrema-direita. Mas o caso francês mostra que o limite da sua capacidade é adiar o problema, não resolvê-lo. Em Portugal, o risco é o mesmo: um dos dois partidos do centro sair dele encolhido.
Fernando Medina alertou em 2024 que um bloco central daria ao Chega o “monopólio de toda a oposição”. Ventura já se apresenta como “oposição ao bloco central”. Basta-lhe isso para converter uma disputa a três num duelo entre “o sistema” e ele próprio. O bloco central nem precisa de existir formalmente. Discuti-lo é suficiente para dar ao Chega o estatuto de única alternativa que nenhuma sondagem lhe garante e reforçar a sua inevitabilidade.
Há ainda uma ironia neste debate. O verdadeiro dilema é do PSD, não do PS. Em vários estudos, o PSD surge atrás do PS e do Chega; Passos Coelho defendeu que o PSD devia ter explorado um entendimento à direita em 2024. Montenegro, pelo contrário, escreveu na moção ao congresso que o “não é não” ao Chega tem o mesmo sentido do não ao bloco central. Se o PS vencer, Montenegro terá de decidir se o deixa governar; se o Chega ganhar, até onde resiste o seu "não é não"? Ao falar de bloco central, o PS poupa Montenegro a essas perguntas, porque transforma o problema do PSD num problema do PS. Foi por isso que Carneiro acertou. A pergunta determinante não é se o PS governaria com o PSD para travar Ventura, mas se o PSD deixaria governar o PS para o manter fora do poder.
Nada disto impede entendimentos pontuais em matérias estruturais ou em políticas públicas com longevidade superior a um ciclo legislativo. São até desejáveis e reveladoras de maturidade política. Discutir fórmulas de governo para cenários de derrota não é sentido de responsabilidade, é oferecer ao adversário, de mão beijada, o discurso que procura. O PS tem hoje aquilo que o Chega mais deseja e ainda não conquistou, e não há razão para abdicar da alternativa dois anos e meio antes de alguém a disputar nas urnas. Fazê-lo só contribui para desbaratar capital eleitoral e para reforçar gratuitamente a inevitabilidade da extrema-direita.
Até porque os eleitores costumam fazer a vontade aos partidos que se preparam para perder.