“A dengue é atualmente uma das doenças tropicais mais importantes. Embora não mate muitas pessoas, tem um enorme impacto económico e social.”
Duane J. Gubler
Destacado cientista e Professor Emeritus norte-americano (1939)
As primeiras descrições prováveis de surtos de dengue remontam ao ano de 1779. O nome da doença tem origem incerta, talvez espanhola ou portuguesa. Devido às dores musculares e articulares, os doentes apresentavam uma marcha rígida, afetada ou “dengosa”, o que poderá estar na base da designação. Na década de 1940 foi identificada a origem viral da dengue, causada por vírus de RNA pertencentes à família Flaviviridae. O latim flavus significa “amarelo”, numa referência ao vírus da febre amarela, e esta família inclui também os vírus Zika, do Nilo Ocidental e da hepatite C.
Um terço da população mundial está diariamente em risco de contrair a infeção, 390 milhões de pessoas são infetadas todos os anos e 96 milhões têm manifestações clínicas. Em 2023, mais de 5000 mortes foram associadas à dengue. A infeção pode ser assintomática ou apresentar várias manifestações, incluindo febre, cefaleias, dores oculares ou retro-orbitárias, erupção cutânea, mialgias e dores ósseas e articulares. Raramente evolui para formas graves, com manifestações hemorrágicas e choque potencialmente fatal.
Consideram-se quatro serotipos do vírus da dengue, os serotipos 1, 2, 3 e 4. A infeção por um serotipo confere proteção duradoura contra esse serotipo, mas apenas imunidade de curta duração contra os restantes, com risco de maior gravidade em caso de reinfeção por outro serotipo. Todos os vírus da dengue são patogénios humanos transmitidos por mosquitos e não há transmissão direta entre humanos, exceto durante a gravidez ou o parto. Ao picarem uma pessoa infetada, os mosquitos adquirem o vírus e podem posteriormente transmiti-lo a outras pessoas. Os mosquitos da espécie Aedes aegypti, com ampla distribuição em regiões tropicais e subtropicais, são o principal vetor de transmissão e vivem, em média, duas a quatro semanas. Só as fêmeas picam os humanos, porque precisam de sangue para desenvolver os ovos. Além do Aedes aegypti, as fêmeas infetadas de Aedes albopictus, conhecido como mosquito-tigre, também podem transmitir o vírus, sendo esta espécie considerada um vetor secundário, sobretudo em regiões temperadas, onde se tem vindo a estabelecer, em parte devido às alterações climáticas.
Em Portugal continental, o mosquito-tigre tem sido identificado desde 2017 num número crescente de concelhos. Até agora, todos os casos registados foram importados de outros países, sem evidência de mosquitos infetados. Esta realidade pode mudar, o que nos deve levar a minimizar a importação de casos e, sobretudo, a reforçar as medidas locais de vigilância e de controlo de mosquitos.