A Democracia em risco no Brasil (e no mundo)

Alexandra Leitão

Vereadora na Câmara Municipal de Lisboa eleita pelo PS

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Nos últimos anos têm acontecido vários episódios de uma gravidade extrema que seriam inimagináveis em países democráticos há menos de uma década.

A 6 de janeiro de 2021, apoiantes de Donald Trump, instigados por ele, invadiram o Capitólio, provocando mortos e feridos, por não aceitarem o resultado das eleições democráticas e a vitória de Joe Biden. O incitamento ao golpe de Estado era motivo mais do que suficiente para que Trump fosse punido e privado da possibilidade de ser eleito para um cargo político durante muito tempo. Contudo, Trump foi eleito presidente dos EUA em 5 de novembro de 2024, o que apouca claramente a democracia norte-americana.

A 8 de janeiro de 2023, apoiantes de Jair Bolsonaro atacaram a Praça dos Três Poderes em Brasília, praticaram uma série de atos de vandalismo e de pilhagem e provocaram dezenas de feridos. Também neste caso, os criminosos golpistas foram instigados pelo candidato derrotado, que não aceitou o resultado eleitoral.

No Brasil, como é normal num Estado de Direito, Jair Bolsonaro está em prisão domiciliária pelo seu envolvimento na tentativa de golpe de Estado. Mas talvez não por muito tempo. O seu filho mais velho ganhou a primeira volta das eleições presidenciais e já anunciou que vai libertar e amnistiar o pai se for presidente, violando os princípios da separação de poderes e da imparcialidade, além de pôr em causa a Justiça.

Mas não só.

Após as eleições realizadas no dia 4 de outubro, Bolsonaro e o seu partido, o Partido Liberal, controlam o Parlamento e vários membros da família foram eleitos para diferentes cargos políticos. Se for eleito presidente, Flávio Bolsonaro terá um poder quase absoluto que já demonstrou que não hesitará em usar sem limites.

O eixo “trumpista” na América do Sul vai alastrando como uma mancha de óleo com governantes que são parceiros ou meros fantoches dos EUA, o que terá consequências geopolíticas terríveis para o mundo. Mais aliados dos nazis, que voltaram ao poder num estado da Alemanha, da extrema-direita europeia, de Putin e do genocida Netanyahu (para quem os civis, incluindo crianças, não são danos colaterais, mas sim um verdadeiro objetivo militar, como o documentário Naza, que recomendo, bem demonstra).

E o que será da nossa vida comum no futuro se se entregar a Amazónia a um negacionista das alterações climáticas, como é Flávio Bolsonaro?

Dir-se-á: as eleições são democráticas e tem de se respeitar o seu resultado. Verdade.

Mas devemos estar atentos a interferências externas e distorções, como aconteceu nas eleições presidenciais nos EUA em 2016 com a Cambridge Analytica. A utilização das redes sociais e da Inteligência Artificial para difundir notícias falsas, perfis falsos e bots, que se fazem passar por humanos, para criar um contexto de confusão, desinformação e manipulação, põem em causa a transparência e a democracia dos atos eleitorais.

A eventual vitória da extrema-direita miliciana na maior democracia da América do Sul, transformando o Brasil em mais um país cúmplice de Trump e da nova ordem internacional que ele quer impor, juntamente com Putin e Netanyahu, seria uma tragédia para o mundo. Quem na Europa prefere Bolsonaro a Lula terá a mesma lição daqueles que em 2024 não sabiam quem escolher entre Trump e Kamala Harris.

Nota: Esta semana passaram 3 anos sobre o bárbaro e hediondo ataque do Hamas a Israel, que merece a mais veemente e profunda condenação. As vítimas e a suas famílias têm a nossa eterna solidariedade. O mundo mudou depois da chacina perpetrada nesse dia e do genocídio que se lhe seguiu.

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