Quem está familiarizado com o intelectualmente sofisticado mundo do xadrez, sabe que o jogo oferece múltiplas possibilidades de defesa.
A Siciliana, ideal para quem busca a vitória com as pretas, a Caro-Kann, confiável por permitir um desenvolvimento harmonioso do bispo antes de fechar a cadeia de peões, a Francesa, em que as pretas aceitam restrição inicial para contra-atacar a prazo, a Petroff, para neutralizar o jogo rapidamente, a Eslava, uma muralha que protege o peão central sem trancar o bispo, ou a da moda, a Grünfeld, em homenagem ao grande mestre austríaco do século XIX, em que as pretas permitem o domínio das brancas, via peões, para depois as atacar com bispos e cavalos.
Pelo contrário, no intelectualmente primitivo mundo das campanhas eleitorais, a mais comum é “a defesa do ignorante”.
Tomemos como exemplo as entrevistas ao Jornal Nacional, principal bloco noticioso da TV Globo e, por extensão, da TV brasileira dos dois principais candidatos ao Planalto.
Lula da Silva, como referido neste espaço há uma semana, tem um calcanhar de Aquiles chamado Lulinha, o filho envolvido num suposto esquema de tráfico de influências junto ao governo do pai, por via de Roberta Luchsinger, uma influente lobista. Para se defender, o candidato à reeleição disse: “Nunca vi essa moça na vida.” Horas depois, a internet estava cheia de fotos dele, de membros do governo e até da primeira-dama ao lado de Luchsinger.
A Flávio Bolsonaro, por sua vez, foi perguntado por 12 minutos seguidos sobre o paradeiro dos 61 milhões de reais que pediu ao seu calcanhar de Aquiles, o banqueiro corrupto Daniel Vorcaro, para financiar um filme sobre o pai. Que não sabia de nada, repetiu.
A “defesa do ignorante” é datada do século XIX, e por isso contemporânea do grande mestre Grünfeld: nasceu no tribunal de Jackson, Tennessee, quando o comerciante Marlin Heady enfrentava inevitável pena de prisão por produzir Moonlight, bebida alcoólica ilegal. Yankee John Stafford, seu advogado, teve então uma ideia: “Marlin, tu não tiveste uns ataques nervosos no passado? Podes ter outro?”
O que se passou depois ficou na história daquele tribunal, da Justiça americana e de quase todas as campanhas eleitorais a partir daí: ao lhe ser perguntado pelo juiz se se declarava culpado, Marlin espumou pela boca, fez caretas, berrou, rosnou, esganiçou e esbravejou à medida em que se aproximava, ameaçador, da tribuna. Foram necessários três funcionários para o retirar da sala. O juiz, ainda a tremer, virou-se então para Yankee John e indagou como declarava o seu cliente, “culpado ou inocente”? “Inocente por ignorância, excelência.” E Marlin foi absolvido.
Daí em diante, ainda que de forma menos teatral, a estratégia foi replicada, em campanhas eleitorais e não só, via expressões do tipo “não fui informado”, “não tive conhecimento”, “não dá para conhecer toda a gente”, “não tenho como saber para onde foi o dinheiro”...
No intelectualmente sofisticado mundo do xadrez, vencem os que se revelarem mais sagazes. No intelectualmente primitivo mundo das campanhas eleitorais, perdem os que se revelarem menos ignorantes.