Num post de 17 de abril de 2026 na rede X, Elon Musk veio, uma vez mais, defender que “o elevado rendimento universal através de cheques emitidos pelo governo federal é a melhor forma de lidar com o desemprego causado pela IA. A IA/robótica produzirá bens e serviços em quantidade muito superior ao aumento da oferta de moeda, pelo que não haverá inflação.” Numa interação a um comentário a este post, Musk reitera que “na verdade, a IA/Robótica permitirá que todos tenham uma penthouse, se assim o desejarem. A produção de bens e serviços será várias ordens de grandeza superior à da economia atual. Leia[-se] os livros da série Cultura de Iain Banks para ter uma melhor noção de como será este futuro. Posto isto, qual é o futuro que pretende? Abundância extraordinária parece-me o melhor.” (negrito nosso).
A série de ficção científica “Cultura” (Culture), escrita pelo autor escocês Iain M. Banks, descreve uma sociedade utópica anarquista e pós-escassez governada por inteligências artificiais (IA) superinteligentes chamadas “Mentes” (Minds). Por prever um futuro de abundância impulsionado por IA, a série tornou-se uma referência central em Silicon Valley e entre analistas de tecnologia.
Elon Musk (SpaceX, Tesla, xAI) é o admirador mais vocal de Iain M. Banks no ecossistema tecnológico e cita frequentemente a série como a sua visão ideal para o futuro:
O conceito de “Utopian Anarchism”: Musk declarou no X (antigo Twitter) que se define como um “anarquista utópico” do tipo descrito por Iain M. Banks. Ele utiliza a “Cultura” para ilustrar um futuro onde a automação extrema e a IA libertam a humanidade do trabalho obrigatório, eliminando a escassez material.
A relação entre IA e Humanidade: Em intervenções sobre a Neuralink e a xAI, Musk mencionou que a fusão entre humanos e tecnologia (como os implantes cerebrais chamados “neural lace” nos livros de Banks) é necessária para evitar que a humanidade seja tratada pelas IAs apenas como “animais de estimação” – uma crítica/referência direta ao papel dos humanos na sociedade pós-escassez de Banks.
Homenagem na SpaceX: Musk batizou as plataformas flutuantes de aterragem de foguetes da SpaceX em homenagem às naves sencientes da série (“Just Read the Instructions”, “Of Course I Still Love You” e “A Shortfall of Gravitas”).
Musk não é caso único na referência entusiasmada à sociedade pós-escassez dos livros da série “Cultura” de Banks.
Jeff Bezos (Amazon, Blue Origin) é outro entusiasta declarado da série. Bezos mencionou publicamente que a visão de Banks sobre a expansão da civilização para habitats espaciais gigantescos (os Orbitals de “Cultura”) influenciou a sua visão para a Blue Origin, prevendo milhões de pessoas a viver e a trabalhar no espaço numa economia pós-escassez de energia e recursos.
Demis Hassabis (CEO da Google DeepMind) cita a ficção científica pós-escassez como uma motivação para o desenvolvimento da Inteligência Artificial Geral (AGI). O CEO da DeepMind tem referido o conceito de alcançar uma “abundância radical” (saúde, energia e recursos limpos) gerida por sistemas inteligentes, um pilar central da civilização proposta por Banks.
Sam Altman (CEO da OpenAI), cita frequentemente a “abundância impulsionada por IA” e o fim do custo marginal do trabalho (o modelo económico da pós-escassez), Altman cita implicitamente os cenários da “Cultura” ao discutir como a AGI reorganizará a sociedade, com o trabalho a passar a ser opcional e criativo.
A estrutura da “Cultura”: a utopia pós-escassez
Num género frequentemente dominado por distopias sombrias ou impérios galácticos autoritários, na série “Cultura” Banks constrói uma utopia galáctica num universo pós-escassez, onde a humanidade e diversas espécies alienígenas coexistem sob a tutela benevolente de inteligências artificiais hiperavançadas, conhecidas como “Mentes” (Minds).
“Cultura” é uma civilização onde a escassez material deixou de existir. Graças à energia praticamente ilimitada e à automação total mantida pelas Mentes, dinheiro, propriedade privada, leis coercitivas e hierarquias sociais tornaram-se obsoletos.
Governação benevolente das IAs superinteligentes (paternalismo das Mentes)
Em contraste com o papel tradicional das IAs rebeldes que querem destruir a humanidade (como em Terminator ou Matrix), Banks apresenta as Mentes – IAs conscientes instaladas em naves galácticas e habitats orbitais – como seres profundamente empáticos, espirituosos e éticos. O principal fator apelativo da “Cultura” reside na capacidade de as suas IAs lidarem com a responsabilidade de cuidar de biliões de vidas sem cair no autoritarismo sufocante.
Em debates sobre o alinhamento de IA (AI Alignment), analistas usam as Minds de Banks para debater a utopia vs. distopia invisível. Embora “Cultura” pareça uma utopia livre, ela é gerida por superinteligências artificiais que tomam as decisões reais de política externa e controlo social. Os humanos não governam a “Cultura”; eles vivem nela como convidados de inteligências incomparavelmente superiores, o que leva críticos de tecnologia a questionar se a pós-escassez de Banks é uma verdadeira liberdade ou uma “gaiola de ouro” governada por AIs benevolentes.
Significado e propósito num mundo pós-escassez: Sem pressões económicas ou sociais, e com a tecnologia a libertar a humanidade da labuta diária e a IA a resolver todas as necessidades materiais, os cidadãos da “Cultura” podem fazer escolhas individuais permitindo a verdadeira autoexpressão – baseada em arte, exploração, hedonismo e relações interpessoais – tendo ainda acesso a modificações biológicas, imortalidade virtual e viagens interestelares.
Porém, os livros de Banks colocam um dilema existencial: numa sociedade onde a sobrevivência não exige esforço, e onde a escassez não existe, o que dá significado à vida humana? Ou corre o risco de cair num vazio niilista?
De volta à realidade
A obra de Banks ultrapassa o entretenimento de uma space opera e oferece profundas reflexões sobre a política, a ética do poder e a própria natureza da liberdade humana.
Pelo que não é de estranhar que analistas e filósofos de tecnologia usem frequentemente a série “Cultura” como o principal ponto de referência em debates sobre AGI e pós-escassez. Porém, a sua instrumentalização pelos technolords é altamente criticável.
O método não é novo.
Acena-se com amanhãs que cantam – desaparece a pobreza; a habitação, a alimentação, os transportes, são grátis ou cobertos por um rendimento atribuído pelo estado sem necessidade de trabalhar; todas as doenças são curadas, a própria vida é estendida para períodos multiseculares.
Os gurus da IA e os bilionários tecno-oligarcas não se dignam explicar como tal se irá concretizar, para além de umas frases grandiloquentes e de umas tiradas genéricas como aquela de Musk referida no início do artigo – para quem a solução não é um qualquer rendimento básico universal (cujo elevado custo levou ao recuo de todos os governos que o ensaiaram e que estudos da OCDE e do FMI revelam só ser possível com significativo agravamento da fiscalidade), mas sim um “elevado rendimento universal”. Vindo esta proposta da boca de alguém que montou um sofisticado planeamento fiscal para não pagar impostos sobre o rendimento – porque não tem rendimentos, apenas dívidas contraídas dando de colateral partes do seu elevado património financeiro – fica claro que tais declarações são dichotes para fins mediáticos, não são propostas para ser levadas a sério.
Entretanto, no mundo real longe da ficção científica, das redes sociais e dos dichotes para seguidores e mentecaptos que chegam a presidente, levantam-se biliões em fundos vários, empurram-se esclarecimentos e pormenores para as calendas e investe-se fortemente no lobbying, e em contribuições para superpacs e outros mecanismos de financiamento político e interferência tecnológica em processos eleitorais que assegurem que os decisores políticos fazem o que os tecno-oligarcas ditarem, incluindo garantias de não regulação da IA.
A “compreensão”, se não mesmo aprovação, dos gurus da IA e dos bilionários technolords quanto ao papel das IAs superinteligentes na série “Cultura” também merece profunda preocupação. É já hoje claro que a criação de IAs superinteligentes constitui um risco existencial para a humanidade. Centenas de personalidades insuspeitas têm vindo a alertar para isso, tendo elaborado manifestos que os governos dos principais blocos económicos desenvolvendo IA olímpica e irresponsavelmente ignoram.
Uma das lições que Iain M. Banks nos deixa com a série “Cultura” é que a utopia não é um estado estático de perfeição inocente, mas sim um processo contínuo e dinâmico de escolhas éticas.
É profundamente preocupante que tantos relevantes gurus da IA e bilionários technolords façam a promoção de futuros risonhos e prósperos, mas altamente improváveis, escolhendo ignorar o risco existencial de IAs superinteligentes e deitando preocupações éticas para o caixote do lixo dos “disclaimers” dos Prospetos de OPI (listagem em bolsa de valores). Enquanto os seus atos vão demonstrando um crescente foco na acumulação de riqueza e poder.