Há uma palavra que nos absolve com demasiada facilidade: “mero”. Somos meros espectadores, meros leitores, meros utilizadores que deslizam o dedo sobre imagens de corpos detidos, humilhados, expulsos. Em O Intolerável (Zigurate, 2026), o mexicano Enrique Díaz Álvarez desmonta essa palavra com paciência e sem piedade. A tese é simples e incómoda: perante a crueldade exercida pelas instituições, a passividade não é neutra. Quem assiste em silêncio, quem aplaude ou quem consome a exibição do mal como entretenimento integra o mecanismo que a torna possível.
Michel Foucault ensinou-nos que o suplício público do Antigo Regime não se dirigia apenas ao condenado, mas sobretudo à multidão. O cadafalso era um teatro do poder e a plateia era peça essencial da encenação: sem testemunhas, a soberania ficava sem eco. A modernidade penal escondeu depois o castigo atrás dos muros da prisão, trocando o espetáculo pela vigilância. Díaz Álvarez mostra-nos que esse movimento se inverteu. A violência institucional regressou à praça pública, agora feita ecrã: deportações filmadas como reality show, detenções transmitidas em direto, governantes que encenam a dureza como prova de eficácia. O suplício voltou a precisar de público e encontrou-o.
Gilles Lipovetsky descreveu-nos como indivíduos da era do vazio, disponíveis para a emoção instantânea e avessos ao compromisso duradouro. A nossa indiferença não é ausência de sentimento, é sentimento sem consequência. Indignamo-nos durante 30 segundos e seguimos para o vídeo seguinte. O castigo tornou-se mais um conteúdo entre conteúdos, intercalado com receitas e anúncios. É essa economia da atenção que serve o poder cruel: uma audiência que se comove sem agir é a audiência perfeita, porque legitima pela presença e não incomoda pela ação.
A cumplicidade não exige assinatura, nem gesto. Basta o clique, o encolher de ombros, a gargalhada perante o humilhado. Ser espectador nunca é ser “mero”: é emprestar ao carrasco aquilo de que ele mais precisa, a normalidade. O que se vê todos os dias deixa de parecer intolerável e é aí que começa a tolerância do inaceitável.
Mas há uma armadilha simétrica. A resposta à crueldade espetacular não é a revolta espetacular. Partilhar uma indignação, mudar a fotografia de perfil, gritar mais alto numa rede social pode ser apenas outra forma de assistir, agora com a ilusão de participar. A insubmissão feita pose alimenta o mesmo palco que pretende derrubar.
A verdadeira insubmissão é lenta e pouco fotogénica. Passa por investir em conhecimento e informação, por recusar o riso fácil perante o sofrimento alheio, por escrutinar as instituições, por votar, por estar presente quando ninguém está a filmar. E passa por desligar o ecrã quando ele nos pede apenas que aplaudamos. O contrário da crueldade não é o protesto que se exibe. É a responsabilidade que se exerce.