Nuno Melo afirmou esta segunda-feira, nas Jornadas Parlamentares da AD, que “Portugal não merece, nem precisa de uma nova crise política” e que o PS e o Chega “terão uma desilusão” se optarem por esse caminho. A frase surgiu como reação aos chumbos das alterações à Lei da Nacionalidade e da reforma laboral, dois momentos que expuseram a fragilidade do Governo no Parlamento. Mas o que nos deve prender a atenção é o facto de o ministro da Defesa (e líder do CDS) admitir publicamente a possibilidade de uma nova crise política.O Governo minoritário da AD parece ter a vida cada vez mais dificultada e uma margem de atuação cada vez mais estreita, como sugerem a sucessão de derrotas no Parlamento e a erosão nas sondagens. Ao admitir a hipótese de crise, Nuno Melo tenta também atribuir responsabilidades, sugerindo que uma eventual rutura deve ser atribuída ao PS e ao Chega. É uma tentativa de enquadramento compreensível, dado o histórico neste domínio – o eleitorado tende a “castigar” quem provoca uma crise política –, mas que apresenta duas vulnerabilidades que não podem ser ignoradas..A primeira é que, para muitos eleitores, o Governo não está encurralado pela oposição, mas sim por si próprio e pelas suas escolhas, que afastaram uma boa parte do eleitorado que lhe deu a vitória nas eleições de maio de 2025. Quando decidiu seguir o Chega no tema da imigração, o Governo alienou o eleitorado moderado que tradicionalmente oscila entre PS e PSD, e que, como mostram os últimos barómetros DN/Aximage, está a passar em grande parte para o campo socialista. O mesmo aconteceu com a lei laboral, uma proposta impopular em que o Governo insistiu durante meses a fio, que não constava do programa eleitoral da AD e que, segundo as sondagens, foi rejeitada por dois terços dos portugueses.Neste contexto, segundo o último barómetro DN/Aximage, a AD perdeu 26% dos eleitores que lhe confiaram o voto nas últimas legislativas. E é bom lembrar que, na era da polarização e da fragmentação, as eleições continuam a decidir-se ao centro. E este está a fugir da AD.A segunda vulnerabilidade é ainda mais difícil de contornar. As pessoas têm cada vez menos memória. Vivemos no tempo do TikTok, dos vídeos de 15 segundos e do attention span de uma ervilha. Nuno Melo bem pode tentar recordar as polémicas da governação socialista – como o caso do assessor exonerado que levou um portátil para casa e foi visitado pelo SIS; o contrato da presidente-executiva da TAP; o caos no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras; a Operação Influencer e as notas escondidas numa estante em São Bento –, mas hoje já ninguém pensa nessas coisas. O que os portugueses querem é a resolução dos problemas que se arrastam há anos em áreas como a Saúde, a Educação e a Habitação, precisamente aquelas onde o Governo ainda não conseguiu apresentar resultados visíveis para a maioria da população.."A frase de Nuno Melo revela a posição frágil de um Governo minoritário, que enfrenta uma oposição cada vez mais crítica, enquanto tenta satisfazer um eleitorado escorregadio.”.A frase de Nuno Melo é, por isso, reveladora da fragilidade de um Governo minoritário que enfrenta uma oposição cada vez mais crítica, enquanto tenta satisfazer um eleitorado impaciente e escorregadio. A estratégia de atribuir responsabilidades ao PS e ao Chega não substitui o essencial, que é apresentar resultados concretos num país que passou a esperar que tudo seja feito para ontem.A seu favor, o Governo tem o facto de a oposição ainda não estar preparada para ir a votos e de as sondagens continuarem a não apontar para uma alternativa que garanta estabilidade política a prazo. Luís Montenegro tem ainda algum tempo para virar o tabuleiro do jogo e recuperar o terreno perdido. Mas apenas se economia e as contas públicas, muito condicionadas pela geopolítica, o permitirem.