A crise política só se evita com resultados

Filipe Alves

Diretor do Diário de Notícias

Publicado a

Nuno Melo afirmou esta segunda-feira, nas Jornadas Parlamentares da AD, que “Portugal não merece, nem precisa de uma nova crise política” e que o PS e o Chega “terão uma desilusão” se optarem por esse caminho. A frase surgiu como reação aos chumbos das alterações à Lei da Nacionalidade e da reforma laboral, dois momentos que expuseram a fragilidade do Governo no Parlamento. Mas o que nos deve prender a atenção é o facto de o ministro da Defesa (e líder do CDS) admitir publicamente a possibilidade de uma nova crise política.

O Governo minoritário da AD parece ter a vida cada vez mais dificultada e uma margem de atuação cada vez mais estreita, como sugerem a sucessão de derrotas no Parlamento e a erosão nas sondagens. Ao admitir a hipótese de crise, Nuno Melo tenta também atribuir responsabilidades, sugerindo que uma eventual rutura deve ser atribuída ao PS e ao Chega. É uma tentativa de enquadramento compreensível, dado o histórico neste domínio – o eleitorado tende a “castigar” quem provoca uma crise política –, mas que apresenta duas vulnerabilidades que não podem ser ignoradas.

"Nuno Melo afirmou esta segunda-feira, nas Jornadas Parlamentares da AD, que 'Portugal não merece, nem precisa de uma nova crise política'."
"Nuno Melo afirmou esta segunda-feira, nas Jornadas Parlamentares da AD, que 'Portugal não merece, nem precisa de uma nova crise política'." FOTO: Estela Silva

A primeira é que, para muitos eleitores, o Governo não está encurralado pela oposição, mas sim por si próprio e pelas suas escolhas, que afastaram uma boa parte do eleitorado que lhe deu a vitória nas eleições de maio de 2025. Quando decidiu seguir o Chega no tema da imigração, o Governo alienou o eleitorado moderado que tradicionalmente oscila entre PS e PSD, e que, como mostram os últimos barómetros DN/Aximage, está a passar em grande parte para o campo socialista. O mesmo aconteceu com a lei laboral, uma proposta impopular em que o Governo insistiu durante meses a fio, que não constava do programa eleitoral da AD e que, segundo as sondagens, foi rejeitada por dois terços dos portugueses.

Neste contexto, segundo o último barómetro DN/Aximage, a AD perdeu 26% dos eleitores que lhe confiaram o voto nas últimas legislativas. E é bom lembrar que, na era da polarização e da fragmentação, as eleições continuam a decidir-se ao centro. E este está a fugir da AD.

A segunda vulnerabilidade é ainda mais difícil de contornar. As pessoas têm cada vez menos memória. Vivemos no tempo do TikTok, dos vídeos de 15 segundos e do attention span de uma ervilha. Nuno Melo bem pode tentar recordar as polémicas da governação socialista – como o caso do assessor exonerado que levou um portátil para casa e foi visitado pelo SIS; o contrato da presidente-executiva da TAP; o caos no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras; a Operação Influencer e as notas escondidas numa estante em São Bento –, mas hoje já ninguém pensa nessas coisas. O que os portugueses querem é a resolução dos problemas que se arrastam há anos em áreas como a Saúde, a Educação e a Habitação, precisamente aquelas onde o Governo ainda não conseguiu apresentar resultados visíveis para a maioria da população.

"A frase de Nuno Melo revela a posição frágil de um Governo minoritário, que enfrenta uma oposição cada vez mais crítica, enquanto tenta satisfazer um eleitorado escorregadio.”

A frase de Nuno Melo é, por isso, reveladora da fragilidade de um Governo minoritário que enfrenta uma oposição cada vez mais crítica, enquanto tenta satisfazer um eleitorado impaciente e escorregadio. A estratégia de atribuir responsabilidades ao PS e ao Chega não substitui o essencial, que é apresentar resultados concretos num país que passou a esperar que tudo seja feito para ontem.

A seu favor, o Governo tem o facto de a oposição ainda não estar preparada para ir a votos e de as sondagens continuarem a não apontar para uma alternativa que garanta estabilidade política a prazo. Luís Montenegro tem ainda algum tempo para virar o tabuleiro do jogo e recuperar o terreno perdido. Mas apenas se economia e as contas públicas, muito condicionadas pela geopolítica, o permitirem.

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