A cada um o seu estoicismo

Guilherme d’Oliveira Martins

Presidente do Conselho das Artes do Centro Nacional de Cultura

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Marcello Duarte Mathias é um dos nossos mais lúcidos ensaístas, com uma obra rica e multifacetada. Diplomata experimentado, sereno analista da sociedade e da cena internacional é alguém que acompanha com especial atenção a evolução do tempo à luz do pensamento e da relação complexa entre a história e o saber. Leitor atento e atualizado é sempre o mais avisado conselheiro sobre os melhores livros e os autores mais oportunos e necessários. Li com o gosto e o proveito costumeiros o seu último livro, que aconselho vivamente, – Intervalo – Diário 2024-2025 seguido de A Memória dos Outros III – Ensaios e Crónicas (D. Quixote). No fundo, compreendemos bem que para o autor “escrever é saber-me vivo, sentir-me vivo, continuar vivo”. E é bom, para os seus amigos, ouvir as suas reflexões e usufruir da sua inesgotável qualidade de advertir. Em cada palavra, em cada forma de compreender o tempo, em cada verificação dos limites que nos constrangem, deparamo-nos com a qualidade de caminhar, percebendo que para frente é o caminho. E sentimos na sua experiência pessoal a sensibilidade para encarar a essência do drama humano a partir de quem é próximo e cuja presença é sempre enriquecedora, mesmo quando a luz se enfraquece.

Na reflexão determinada, o analista afirma, no domínio da coisa pública, que “importa saber hierarquizar prioridades e governar com sentido da continuidade histórica – daí o primado da política sobre as restantes valências – sabendo que a História é trágica, especialmente para os países mentalmente desarmados, como é hoje em boa medida o nosso caso, sendo esta talvez a nossa primeira vulnerabilidade de entre outras a que estamos sujeitos. E, do mesmo passo, não enganar ou iludir os portugueses, povo adulto perfeitamente apto a enfrentar a verdade dos factos, pois tudo leva a crer que os tempos que aí vêm não são de bonança”. Num momento dado à amnésia histórica, é fundamental estar de sobreaviso e cuidar de pensar.

A propósito da reedição da biografia de Fernando Pessoa por João Gaspar Simões, encontramos o paralelo entre as duas gerações mais influentes dos últimos séculos e compreendemos a vitalidade das ideias, como modo de nos acordarem de um sono multissecular. “Decerto ambos os movimentos assumem o gosto do desafio que é sobretudo vontade de emancipação, porquanto têm como ponto de partida uma demanda de identidade. Com sensíveis diferenças, todavia: a Geração de 70 é uma irreverência coletiva empenhada na regeneração moral do país, enquanto Orpheu se afirma pela largueza de vistas aliada a uma iconoclastia intelectual. Mais artística, aliás, do que ideológica. Numa palavra, Orpheu é uma aposta, a Geração de 70 uma pedagogia. Perceções diferentes ou faces da mesma moeda?” Gaspar Simões e os companheiros da Presença compreenderam a continuidade e a excecionalidade de Orpheu e Eduardo Lourenço propôs-se repensar os mitos, para além das fantasmagorias, inserindo-os no senso comum, sem esquecer os sonhos e a capacidade de acordarmos com os pés assentes na terra (sem a ilusão messiânica, mas sem indiferença para a mesma). A aposta e a pedagogia estão sempre presentes na nossa idiossincrasia. E assim os mitos são pensados à luz de Montaigne e Pascal, como no Labirinto da Saudade. Marcello Mathias lê-se com gosto, qual Diógenes em busca de ver melhor. Contemplar o mundo com olhar póstumo é um alerta, um modo de aprendizagem. “A cada um o seu estoicismo”.

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