A beleza que se esqueceu de quem espera

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Quem já esperou um comboio na Gare do Oriente, em Lisboa, numa manhã de janeiro sabe do que falo. A estrutura de Santiago Calatrava, inaugurada para a Expo 98, é uma floresta de aço e vidro que continua a encher catálogos de arquitetura. É também um dos lugares mais inóspitos do País para quem ali está por necessidade e não por contemplação. A cobertura das plataformas deixa passar a chuva e o vento, os bancos são escassos e gelados, as ligações entre comboio, metro e autocarros obrigam a percursos labirínticos, com escassas escadas rolantes e pequenos elevadores que funcionam quando calha, um calvário para quem viaja com malas ou crianças. Ou um parque de estacionamento subterrâneo que é um cenário de um mau filme de terror. O passageiro, razão de ser do edifício, parece ter sido o único esquecido no projeto.

Há dois mil anos, Vitrúvio resumiu a boa arquitetura em três exigências: solidez, utilidade e beleza. Muita arquitetura contemporânea, sobretudo a das infraestruturas para o público, parece ter invertido a ordem, fazendo da beleza o ponto de partida e da utilidade um incómodo a resolver depois. O princípio de Louis Sullivan, segundo o qual a forma segue a função, deu lugar a outro, nunca proclamado, mas amplamente praticado: a função que se acomode à forma.

O problema não se esgota nas obras de autor. Quanto edifícios públicos de elevada intensidade de uso, como escolas ou faculdades, têm materiais e acabamentos desadequados, que aplicaríamos eventualmente em nossa casa e nunca numa casa onde passam 900 pessoas todos os dias? Quantas salas de espera de serviços de urgência não parecem pequenas arrecadações, apinhadas de gente, com cadeiras aparafusadas em fila e nenhuma janela? Ali passam horas pessoas doentes, idosas, assustadas, em espaços onde o contágio é favorecido porque a arquitetura – e a tranquilidade e paz que esta deveria trazer – foi desconsiderada ou menorizada. Tudo parece desenhado para ser eventualmente limpo com rapidez, mas nunca para ser habitado por quem sofre.

Vi também projetos de estabelecimentos prisionais, ainda não construídos, em que espaços comuns que deveriam privilegiar a segurança e a vigilância estavam repletos de muretes, arcadas e recantos esconsos, ao serviço de uma estética de estirador. Ignorava-se aparentemente uma cultura de arquitetura prisional com mais de dois séculos, que desde o panótico de Bentham e das penitenciárias radiais do século XIX pensou a relação entre o olhar, a circulação e o controlo. Mesmo com novos e bons requisitos de privacidade e de respeito pela intimidade, uma prisão onde não se vê é uma prisão onde se tem medo, reclusos e guardas incluídos.

Não se trata de defender a fealdade funcional. Um espaço público belo dignifica quem o usa. Mas a beleza que ignora o corpo, o frio, a doença e a espera não é generosidade, é vaidade. Christopher Alexander insistia que os bons lugares nascem da observação atenta de como as pessoas realmente vivem e não de uma ideia imposta de cima.

Talvez o erro esteja no modo como encomendamos estas obras. Os concursos premeiam maquetas e imagens, raramente a experiência de quem vai usar o espaço durante décadas. Ninguém pede ao júri que espere quarenta minutos numa plataforma ventosa ou passe uma noite numa cadeira na urgência. Seria um exercício instrutivo. Um edifício que se admira de fora e se sofre por dentro não falhou por acaso. Esqueceu-se, simplesmente, de para quem foi feito.

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