Há qualquer coisa de singular na Baviera que merece ser observada num continente que, em nome de um universalismo, muitas vezes equívoco, parece cada vez mais constrangido diante das suas próprias raízes, envergonhado por existir. Numa Europa que frequentemente encara a identidade cultural como uma ameaça à pluralidade, a Baviera oferece uma possibilidade diferente: afirmar aquilo que se é sem, por isso, negar a dignidade daquilo que os outros são.
A Kreuzpflicht, introduzida em 2018, é uma das expressões dessa atitude. Desde então, uma cruz deve ocupar um lugar visível à entrada de todos edifícios administrativos e oficiais do Estado Livre da Baviera, apresentada como expressão da sua matriz histórica e cultural.
A medida é considerada um legítimo objecto de debate quanto à relação entre religião, Estado e neutralidade. Mas encerra também uma afirmação que a Europa deveria ser capaz de compreender: uma sociedade não precisa de apagar os sinais da sua história para acolher quem vem de fora.
O mesmo se observa na vitalidade das Trachten, as indumentárias tradicionais das diferentes regiões bávaras. O Dirndl e as Lederhosen tornaram-se poderosos símbolos de pertença regional, através dos quais uma comunidade celebra a continuidade entre gerações e torna visível a sua memória colectiva. E existe algo particularmente eloquente na forma como essa identidade é partilhada.
Um estrangeiro que veste um Dirndl ou Lederhosen, participa numa festa local e procura respeitar os costumes da terra que visita é recebido não como alguém que “se apropria” de uma cultura, mas como alguém que a aprecia. A diferença está na atitude: não é a tradição que se usurpa; é a tradição que se honra.
Talvez seja precisamente esta distinção que nos esteja a faltar. Uma cultura não se torna mais generosa quando deixa de existir; torna-se mais generosa quando, segura da sua identidade, consegue abrir espaço aos outros sem exigir que estes a neguem, nem exigir a si própria que se descaracterize para os acolher.
A Baviera recorda-nos uma verdade que a Europa não deveria recear: identidade e hospitalidade não são conceitos antagónicos. É possível amar uma língua, uma paisagem, uma religião, uma indumentária ou uma tradição sem considerar inferiores aqueles que não as partilham. É possível preservar símbolos sem os transformar em muros.
Talvez a verdadeira maturidade cultural consista justamente nisso: não abolir as diferenças, mas aprender a habitá-las sem vergonha, sem arrogância e sem medo. Uma Europa verdadeiramente plural não deveria ser aquela em que todas as culturas acabam por se parecer ou ceder aos recém-chegados, mas aquela em que cada uma pode continuar a dizer, com serenidade e orgulho: “É assim que somos” e acrescentar: “És bem-vindo a conhecer-nos, desde que nos respeites.”
Na realidade, as minorias são respeitadas na Baviera, bem como as suas tradições, religião e cultura; mas esse respeito não implica a imposição dessas minorias sobre a comunidade de acolhimento. Numa sociedade plural, o respeito deve ser, necessariamente, recíproco.
Professora associada da Universidade Autónoma de Lisboa e investigadora (do CIDEHUS).
Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico