A batota num mundial de prepotência

João Oliveira

Eurodeputado pelo PCP

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Resultados desportivos à parte, o Campeonato Mundial de Futebol está transformado numa metáfora de muito do que se passa no mundo actual. E todos os dias parecem somar-se novos elementos nesse sentido.

Até aqui já tínhamos constatado até onde podia ir a preponderância dos critérios do negócio sobre os valores do desporto, a subserviência do presidente da FIFA face ao ostensivo condicionamento desportivo por razões políticas, a normalização da iniquidade desportiva.

Depois de Donald Trump ter visto a FIFA satisfazer o seu pedido descarado de batota, ficámos a saber que podemos não ter ainda visto tudo o que este Mundial nos pode dar a ver.

Muita tinta tinha já corrido sobre a mercantilização desta competição desportiva. Fosse a propósito do preço dos bilhetes para assistir aos jogos ao vivo nos estádios, fosse a propósito das condições económicas usurárias cobradas para a transmissão televisiva, fosse a propósito da inevitável suspeita que geram as pausas para hidratação face ao seu aproveitamento para fins publicitários, o estigma da prevalência do negócio sobre o desporto parecia, desde o início, ser inevitável.

A este acrescentou-se depois o estigma do condicionamento desportivo imposto por razões políticas com um árbitro somali a ser impedido de entrar nos EUA, um jogador iraquiano a ser interrogado durante sete horas, a revogação de vistos de membros da equipa técnica da seleção iraniana e a consequente obrigação de deslocações entre a cidade mexicana de Tijuana e o local onde aquela selecção disputou cada uma das partidas da competição.

O tempo encarregou-se de esvaziar as palavras do presidente da FIFA na visita que fez ao balneário da seleção iraniana no final do primeiro jogo. Essa visita, de resto, é a mais nítida caricatura da atitude de subserviência assumida pelo presidente da FIFA, sobretudo nas justificações esfarrapadas que encontrou para dar cobertura à iniquidade desportiva que vitimou a selecção iraniana à vista do mundo inteiro.

Agora veio Donald Trump pedir a despenalização de um jogador norte-americano que, por ter visto um cartão vermelho, estava impedido de disputar o jogo frente à Bélgica.

À vista do mundo inteiro, Donald Trump assumiu o pedido para fazer batota. Também à vista do mundo inteiro, a FIFA concedeu a prerrogativa norte-americana à batota.

Talvez haja poucas metáforas tão claras da forma como os EUA procuram aproveitar todas as oportunidades e possibilidades que têm para impor ao mundo inteiro a sua vontade e as suas ambições. E da forma como Donald Trump faz isso – às claras e com toda a farronca e gabarolice –, por contraposição às anteriores administrações norte-americanas que preferiam formas mais dissimuladas ou ocultas.

Pelas piores razões, a prepotência e a batota que estão à vista neste campeonato mundial são um lamentável retrato dos perigos e ameaças que marcam a actualidade do mundo em que vivemos.

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

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