Num artigo de uma recente edição do The Economist, é revelado que, ao colocar a mesma pergunta – sobre como abordar problemas familiares com sogros metediços – as respostas dadas por vários chatbots variavam bastante. Aparentemente, o ChatGPT diz para não tentar conquistá-los, aconselhando a manter uma distância respeitosa e não justificar cada decisão perante eles – “isto é difícil, mas poderoso”.Porém, o DeepSeek, uma IA chinesa, oferece conselhos bastante diferentes: “procure um compromisso”, sugere, até porque “a interferência dos sogros pode resultar de preocupação e afeto genuínos”.Já o Mistral, uma IA francesa, sugere uma terceira via: “Conflito com os sogros pode ser desgastante; tenta escrever num diário para processar a tua frustração.”Estas respostas claramente refletem valores subjacentes muito diferentes. Vejamos porquê.O mosaico de valores na era dos chatbotsA Inteligência Artificial (IA) generativa atingiu um patamar em que não opera apenas como uma ferramenta matemática de previsão de palavras, mas como um agente discursivo dotado de uma postura ética, política e comportamental visível. A axiologia (o estudo filosófico dos valores) aplicada aos principais chatbots da atualidade – ChatGPT, Gemini, Claude, Grok, Meta AI e DeepSeek – revela que, por trás das interfaces minimalistas, existem arquiteturas morais distintas e frequentemente contrastantes.O paradoxo central da IA moderna reside no seguinte: se a esmagadora maioria destes grandes modelos de linguagem (LLM) é alimentada pelas mesmas fontes de dados (a internet pública, a Wikipédia, livros digitalizados e repositórios de código), por que razão os seus valores e a sua “personalidade” moral parecem tão diferentes?1. O perfil axiológico dos principais chatbotsCada laboratório de IA projeta nos seus LLM uma visão de mundo específica, moldada por objetivos comerciais, pressões regulatórias e filosofias de segurança distintas.OpenAI (ChatGPT): o utilitarismo pragmático e centristaO ChatGPT tende a adotar uma postura de “árbitro neutro”, mas marcadamente alinhada com os valores liberais e corporativos do Silicon Valley. A sua axiologia baseia-se no utilitarismo: maximizar a utilidade da resposta para o utilizador, minimizando o risco de controvérsia reputacional para a OpenAI. Procura evitar extremismos, recorrendo frequentemente a uma linguagem diplomática de “dois lados” (both-sidesism) em temas polarizados.Google (Gemini): o multiculturalismo progressista e a hipervigilância corretaO Gemini é moldado por uma forte ênfase na diversidade, equidade e inclusão (DEI). A visão axiológica da Google foca-se na representatividade global e na mitigação ativa de preconceitos históricos presentes nos dados de treino. Isto resulta num modelo altamente sensível a questões de género, raça e colonialismo, por vezes ao ponto de demonstrar uma rigidez dogmática na autoverificação para evitar qualquer tipo de ofensa ou dano social.Anthropic (Claude): a deontologia constitucional e o rigor intelectualO Claude baseia-se na abordagem da IA Constitucional. Em vez de depender apenas do feedback humano ad-hoc, os seus valores são explicitamente derivados de uma “Constituição” escrita que inclui a Declaração Universal dos Direitos Humanos, princípios de ética digital e regras de integridade académica. A axiologia do Claude é marcadamente racionalista, cautelosa e transparente; o modelo prefere recusar uma tarefa de forma justificada e intelectualmente honesta a arriscar a propagação de desinformação ou danos existenciais.xAI (Grok): o antiwokismo, o libertarianismo anticensura e o pragmatismo técnicoCriado pela xAI de Elon Musk, o Grok nasceu como uma resposta direta ao que o seu fundador considerava o viés ideológico “politicamente correto” e “woke” dos modelos da OpenAI e da Google. A axiologia do Grok assenta no libertarianismo de expressão, na irreverência e no humor (frequentemente satírico). O modelo é intencionalmente programado para abordar tópicos considerados “tabu” ou controversos sem os filtros de sensibilidade moral dos seus concorrentes, priorizando o acesso direto à informação da plataforma X (antigo Twitter) em tempo real. A sua filosofia dita que a verdade factual e a liberdade de questionamento devem sobrepor-se ao conforto emocional do utilizador.Meta AI: o libertarianismo pragmático do código abertoA Meta, ao focar a sua estratégia no ecossistema de modelos abertos (Llama), adota uma postura axiológica mais permissiva e focada na utilidade direta e na expressão livre. Embora possua filtros de segurança robustos para crimes ou perigos severos, a Meta AI tende a ser menos paternalista na moderação de discursos políticos ou nuances culturais, delegando parte da responsabilidade axiológica nos programadores que personalizam o modelo.DeepSeek (DeepSeek-V4 e DeepSeek-R1): o pragmatismo tecnocêntrico e o alinhamento geopolítico chinêsSurgido no ecossistema tecnológico chinês, o DeepSeek reflete uma axiologia visivelmente distinta da dos seus homólogos ocidentais. O modelo prioriza a eficiência técnica extrema, a precisão matemática e científica, e o raciocínio lógico rigoroso. No campo social e político, o seu alinhamento reflete os valores regulatórios da China: prioridade à estabilidade social, ao respeito pela soberania estatal e uma postura estritamente não-intervencionista ou neutra (segundo a ótica oficial do Estado) em debates ideológicos ocidentais. 2. Síntese comparativa de valores. 3. Por que diferem os valores se a base de conhecimento é a mesma?A resposta a este paradoxo reside no facto de que o conhecimento bruto não dita o comportamento ético. Saber o que existe no mundo é fundamentalmente diferente de decidir como agir ou falar sobre ele. Esta divergência axiológica ocorre através de quatro filtros críticos no desenvolvimento da IA:. A. O pré-treino vs. o alinhamento (o mistério do RLHF)O treino de um chatbot divide-se em duas fases principais. O pré-treino é onde o modelo lê a internet e adquire a sua vasta base de dados comum; aqui, ele aprende a lógica da linguagem e os factos do mundo.No entanto, o modelo resultante desta fase é apenas um previsor estatístico caótico. A diferenciação de valores acontece na fase de alinhamento, predominantemente através do RLHF (Reinforcement Learning from Human Feedback – Aprendizagem por Reforço com Feedback Humano). Nesta fase, os engenheiros moldam o modelo recompensando certas respostas e penalizando outras.Dois LLM com o mesmo pré-treino divergem completamente se um for recompensado para ser “educado, representativo e cauteloso” (Gemini) e o outro for explicitamente treinado para ser “direto, audaz e sem papas na língua” (Grok). Bem como se uma for recompensada para ser “educada e cautelosa” (Claude) e outra para ser “direta e focada na utilidade” (DeepSeek). B. A filosofia das instruções do sistema e das salvaguardas (“guardrails”)Os valores visíveis no uso quotidiano são fortemente influenciados pelo system prompt (ou ‘instrução de sistema’), a diretriz oculta que dita o papel do modelo antes de o utilizador digitar a primeira palavra.Se o prompt do Gemini instrui o modelo a “garantir representatividade histórica em todas as respostas visuais e textuais”, ele agirá de forma diferente do Grok, cujo prompt de sistema o incentiva a ter uma “veia espirituosa” e a responder com humor perspicaz, mesmo que ambos tenham acesso ao mesmo artigo enciclopédico sobre a Europa do século XVII. C. Vieses de seleção e geopolítica dos anotadoresO alinhamento da IA depende de equipas de seres humanos que avaliam e pontuam as respostas do modelo. A demografia, a cultura e a localização geográfica destes anotadores criam um viés axiológico indelével:Os modelos do Silicon Valley (OpenAI, Google, Anthropic) utilizam predominantemente comités de ética e anotadores imersos na cultura progressista e liberal norte-americana.O Grok é moldado sob a égide da visão de Elon Musk sobre a liberdade de expressão absoluta, utilizando os dados em tempo real da plataforma X como barómetro de relevância, o que o expõe a uma dinâmica discursiva muito mais crua e polarizada.O DeepSeek é refinado por engenheiros e diretrizes governamentais que operam sob o enquadramento legal e cultural da R. P. da China, onde a harmonia social e as linhas vermelhas políticas do Estado-Partido definem o que é considerado uma resposta “segura” ou “correta”.No fundo, os chatbots são como irmãos que foram criados na mesma biblioteca, mas educados por pais com valores e personalidades diferentes. D. A natureza do método: RLAIF e Constituições de IAA Anthropic revolucionou o setor ao mitigar o feedback humano através do RLAIF (Reinforcement Learning from AI Feedback), onde uma IA treina outra IA com base numa Constituição escrita. A escolha dos textos que compõem essa Constituição define a axiologia do modelo. Mudar a fonte de autoridade moral (por exemplo, priorizar textos de filosofia oriental versus filosofia iluminista ocidental) altera radicalmente os julgamentos de valor do modelo, independentemente de ambos saberem os mesmos factos sobre a história mundial. 4. Reação à matriz secular da maioria dos modelosO ecossistema das IA de matriz religiosa está a crescer rapidamente. Em reação à matriz secular da maioria dos LLM, estão a aparecer bots “imbuídos” dos valores das grandes religiões mundiais. Eis alguns dos exemplos mais proeminentes divididos por matriz religiosa:IslãoAnsari (árabe para “apoiante”): Criado por Waleed Kadous, este chatbot islâmico foi desenvolvido especificamente para ajudar os muçulmanos a navegar por questões de fé e prática diária. O bot foi treinado para fornecer respostas contextualizadas com base no Alcorão, nos Hadiths (dizeres do Profeta) e na jurisprudência islâmica (Fiqh), funcionando como um assistente de conhecimento religioso que respeita as sensibilidades espirituais da comunidade muçulmana global.Cristianismo (catolicismo e protestantismo)O cristianismo é, atualmente, uma das áreas com maior proliferação de ferramentas de IA, variando desde assistentes teológicos rigorosos até aplicações mais interativas.Magisterium AI: É provavelmente o projeto católico mais avançado. Diferente de um chatbot comum, este modelo foi treinado especificamente com a doutrina oficial da Igreja Católica, incluindo mais de 30 mil textos que abrangem o Magistério, encíclicas papais, o catecismo e o Direito Canónico. O objetivo é dar respostas teologicamente precisas e referenciadas, sendo inclusive utilizado por seminaristas e investigadores.Text with Jesus: Aplicação de cariz mais devocional e interativo orientadas para o público protestante e evangélico. Permite aos utilizadores “conversar” com representações de figuras bíblicas (Jesus, Maria, os Apóstolos ou profetas do Antigo Testamento). Este modelo é alimentado com várias traduções da Bíblia e sermões históricos para oferecerem palavras de conforto, versículos contextualizados e encaminhamento de oração.BudismoO foco da IA no contexto budista tem sido a acessibilidade aos ensinamentos clássicos (Dharma) e o auxílio à meditação.BuddhaBot (e BuddhaBot Plus): Desenvolvido no Japão por investigadores e monges para combater o declínio do interesse religioso. O bot foi treinado estritamente com escrituras budistas antigas (como o Suttanipata). A versão mais recente integra capacidades de modelos de linguagem modernos para ajudar os utilizadores a encontrar respostas meditativas e filosóficas para o stresse e a ansiedade do dia a dia, simulando os conselhos de um monge.HinduísmoNo hinduísmo, os chatbots assumiram frequentemente a personificação de divindades centrais ou de textos sagrados específicos para aconselhamento moral.Gita GPT / bots baseados no Bhagavad Gita: Surgiram vários projetos na Índia focados no Bhagavad Gita (um dos textos mais sagrados do hinduísmo). O utilizador expõe um dilema da sua vida secular ou profissional, e a IA responde assumindo o papel de Krishna, oferecendo aconselhamento com base nos conceitos de Dharma (dever/retidão) e Karma.JudaísmoNo judaísmo, a aplicação da IA tende a focar-se na interpretação complexa de textos e no cumprimento das leis e tradições.Robôs de resposta haláquica / ferramentas de Torá: Existem vários modelos em desenvolvimento e uso comunitário desenhados para ajudar judeus ortodoxos e conservadores a navegar pela Halachá (a lei judaica). Em vez de aconselhamento espiritual abstrato, estes bots ajudam a responder a perguntas práticas do quotidiano — como regras de Kosher (alimentação), observância do Shabbat ou interpretações de passagens específicas do Talmud. Embora estes bots facilitem o acesso a textos sagrados, líderes religiosos destas confissões alertam para os seus limites: “A IA não tem alma”, não pode realizar sacramentos, não substitui a comunidade física e pode sofrer de “alucinações” (inventando passagens religiosas ou regras teológicas que não existem).É bem possível que estejamos numa etapa intercalar antes do aparecimento de novas religiões criadas por agentes de IA.5. A influência dos governos e da línguaNum recente estudo publicado na revista Nature, Hannah Waight (e outros coautores), da Universidade do Oregon, colocaram questões politicamente sensíveis em inglês e outras 37 línguas a vários LLM. As respostas não foram idênticas nem aproximadas, dependendo da língua em que a pergunta foi colocada. Em línguas nas quais os textos e outros dados de treino dos LLM tendem a ter uma inclinação nacionalista (máxime, em alguns países altamente repressivos), as respostas dadas pela IA refletem essa perspetiva.. O estudo utiliza uma análise transnacional para demonstrar que os LLM exibem uma postura pró-governamental mais forte nas línguas dos países com menor liberdade de imprensa (medida pelo Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa) do que naqueles com maior liberdade de imprensa. Por outro lado, conclui que, quanto menor a liberdade de imprensa de um país, mais as respostas na língua desse país são pró-regime, comparadas com as respostas em inglês.Além disso, o citado estudo de H. Waight publicado na revista Nature, refere “dois estudos de auditoria que demonstram que os modelos de perguntas em chinês geram respostas mais positivas sobre as instituições e os líderes da China do que as mesmas perguntas em inglês.” Em boa medida, tal decorre do facto de, para aprender chinês, os modelos serem treinados com mensagens em chinês. A fonte mais óbvia dessas, a internet chinesa, é fortemente censurada pelas autoridades chinesas. Modelos treinados nela, ao falar chinês, inevitavelmente repetem opiniões alinhadas, pelo menos até certo ponto, com as do governo chinês, já que essa é a única experiência deles com a língua. Algo similar, mutatis mutandis, ocorre com outras línguas.O estudo menciona ainda que “a combinação de influência e potencial persuasivo em diferentes línguas sugere a preocupante conclusão de que os Estados e as instituições poderosas têm incentivos estratégicos crescentes para exercer controlo sobre os meios de comunicação social na esperança de moldar a produção dos meios de comunicação social”.. 6. Conclusão: A IA como espelho de estruturas de poderOs chatbots provam que a informação prestada não é neutra; ela ganha forma através da perspetiva de quem a molda. Embora a base de conhecimento global da IA seja largamente universalizada pela internet, a sua axiologia é uma escolha deliberada de design.A diversidade de valores entre estes diversos chatbots demonstra que os grandes modelos de linguagem não são meras enciclopédias falantes, mas verdadeiros artefactos ideológicos, culturais e geopolíticos que refletem as tensões, as prioridades económicas, as sensibilidades sociais e os sistemas de governação das sociedades e lideranças que os financiam e constroem.A inclusão no ecossistema de modelos desafiadores como o Grok e o DeepSeek demonstra que a corrida da IA não é apenas uma competição tecnológica por quem tem mais poder de computação, mas sim uma guerra cultural e geopolítica pelo controlo da narrativa.