Lembro-me exatamente onde estava. Quase todos nos lembramos. Essa é, talvez, a primeira marca que o 11 de setembro de 2001 nos deixou: há acontecimentos que dividem o tempo em antes e depois, mesmo para quem os viveu a milhares de quilómetros de distância, numa ilha no meio do Atlântico.
Este ano, assinalam-se 25 anos sobre os ataques às torres gémeas, ao Pentágono e a queda do Voo 93 na Pensilvânia. Nova Iorque prepara uma cerimónia com um significado acrescido: pela primeira vez, aos seis minutos de silêncio habituais, juntar-se-á um sétimo, dedicado a quem morreu depois, vítima das doenças associadas ao resgate e à limpeza do Ground Zero, reconhecimento de que o 11 de Setembro não parou de fazer vítimas.
Todos sabemos o que mudou no mundo. Nasceu uma era (mais uma!) de guerras longas, do Afeganistão ao Iraque, de controlos de segurança reforçados e de uma vigilância que tornou normal o que, antes, seria facilmente contestado. Os Estados Unidos trocaram a certeza da invulnerabilidade por uma ansiedade securitária que, ainda hoje, caracteriza a sua política externa e, cada vez mais, também a interna.
Na União Europeia, o impacto foi diferente, mas não menor. O 11 de Setembro acelerou a cooperação policial e judicial entre Estados-membros, contribuiu para o nascimento do Mandado de Detenção Europeu, reforçou Schengen com mecanismos de controlo que antes pareciam contrários ao próprio ADN do projeto europeu. A União aprendeu, à sua maneira, que a abertura e a segurança teriam de ser conjugadas e negociadas em conjunto, um debate que continua vivo, dos atentados de Madrid e de Londres ao terrorismo dos anos 2010, até às tensões migratórias da atualidade.
Mas, se muito se alterou, há algo que não mudou, no que é, porventura, a lição mais incómoda deste aniversário: continuamos a responder ao medo com mais medo, continuamos tentados a trocar liberdade por segurança, quando a ameaça nos parece próxima, e a esquecer esse intercâmbio assim que o risco se afasta.
O populismo que hoje se agiganta dos dois lados do Atlântico (um dos expoentes da decadência política) não nasceu no dia 11 de setembro, mas encontrou nele um dos seus terrenos mais fecundos: a perpetuação do velho maniqueísmo, um “nós” e um “eles”, e a ideia simplória de que a complexidade do mundo global se resolve, afinal, com muros mais altos.
Do mesmo modo, também não se alterou a forma como as sociedades se dividem depois da tragédia inicial. Nos EUA, a unidade quase total de setembro de 2001 durou pouco. Na Europa, a solidariedade transatlântica de então contrasta com o ceticismo de hoje (amplamente justificado) sobre o rumo de uma política norte-americana cada vez mais atípica e “Trumpetizada”.
A um quarto de século de distância, talvez o mais justo seja concluir que o 11 de Setembro não criou o mundo em que vivemos, mas revelou-o. Mostrou do que somos capazes na dor e na resposta a ela, evidenciou o melhor e o pior. Evocar esta data não é ficar preso a 2001. É, antes, questionar, com frontalidade, se, de facto, aprendemos alguma coisa sobre como responder ao medo sem nos perdermos pelo caminho. A resposta, 25 anos depois, continua em aberto.