No dia 11 de Setembro de 2001 estava em Londres, prestes a embarcar para Washington. Almocei cedo com um amigo angolano, o general João de Matos, e apanhei um táxi para Gatwick. Fiz o check-in, mas na loja do aeroporto, onde fui comprar livros e jornais para me abastecer para a viagem, um empregado disse-me com um ar preocupado e enigmático que qualquer coisa de muito grave tinha acontecido na América. Ainda assim, embarcámos e ficámos a aguardar no avião.
Enquanto esperávamos, foram chegando chamadas de Lisboa de pessoas alarmadas com “os atentados em Nova Iorque”. Em pouco tempo, suspendia-se toda a navegação aérea para os Estados Unidos e instalava-se o caos. Com sorte, ainda consegui um voo de regresso a casa.
Agora, no 25.º aniversário do ataque da Al-Qaeda aos Estados Unidos, com a aparatosa destruição das Torres Gémeas (cenicamente perfeita se não fosse tragicamente real) e um total de quase 3000 mortos, vale a pena pensar no terrorismo contemporâneo, nas suas causas, nos seus métodos, nos seus perigos e nas suas consequências.
No 11 de Setembro de 2001, ficou claro que a democratização tecnológica, aliada à motivação e à democratização da imaginação moldada pela ficção, favorecia o pequeno grupo marginal, o grupo não-estatal. Foi o caso da Al-Qaeda, quando 19 terroristas, alguns deles suicidas – os chefes e os pilotos que sabiam do objectivo final – se apoderaram de meios de transporte regulares, aviões carregados de combustível, e os usaram como armas de destruição maciça.
Na reacção, os neoconservadores da Administração Bush – e havia muitos, uns por convicção, outros, como o vice-presidente Dick Cheney, por outras razões –, em busca de acção retaliativa, estenderam a guerra contra o terror a Estados, acabando por invadir o Iraque de Sadam Hussein, que nada tinha que ver com a Al-Qaeda, nem com “armas de destruição massiva”. E com a invasão do Iraque potenciava-se o que se pretendia prevenir.
Em All the Presidents’ Wars: Twenty-Five Years of America’s War on Terror (Peter Bergen, Scribe Publications, 2026), o autor, um especialista com muitos anos de Médio Oriente, analisa a política antiterrorista dos presidentes americanos, de Bush a Trump, passando por Obama e Biden. E conclui que semelhante política, apesar de ter tido o mérito de evitar outros “onzes de Setembro” na América (só houve ataques semelhantes em Espanha e no Reino Unido), acabou por se traduzir numa série de conflitos, cujo balanço não foi feliz para o Ocidente.
A invasão do Iraque de Sadam Hussein, um ditador pouco recomendável. mas sem ligações à Al-Qaeda, nem armas nucleares, acabou por gerar o terrorismo do Estado Islâmico e desencadear guerras no Médio Oriente que instalaram o caos nos mercados de energia e que são também consequência de uma política externa que, apesar das promessas em contrário, continua muito marcada por factores ideológicos e pelo maniqueísmo dos neoconservadores.
E pese embora a expectativa de uma política realista inspirada pelos interesses norte-americanos, quer Trump, quer os responsáveis do Irão, também se deixaram envolver num conflito sem saída, de onde parecem querer sair por cima.
Vai ser pior para os dois, mas é assim: Júpiter (ou o Destino) continua a cegar aqueles que quer perder….
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia