Uma orgia de endorfinas

Pedro Lucas

Diretor das revistas 'Men's Health' e 'Women's Health'

Publicado a: 

Por mais contraditório que pareça, esta crónica foi escrita após um jantar de amigos, servido com boa comida e regada com bom vinho. Alguns treinam habitualmente, outros creio que ficaram convencidos a fazê-lo. Mas vou por partes e agora dirigir-me a si, que continua a seguir o ritmo comum da vida casa-trabalho-casa.

Você já sabe que devia voltar a mexer-se. Provavelmente já tentou: inscreveu-se num ginásio, foi três semanas, falhou um treino, depois dois, e deixou de ir. Isso não aconteceu por falta de vontade. Aconteceu porque treinar sozinho obriga-o a decidir todos os dias se vai ou não. Numa semana com trabalho a mais, filhos doentes ou simplesmente cansaço, a resposta é não. E basta uma semana assim para a rotina se perder. Ideia?

Procure uma atividade em grupo. Porque num grupo essa decisão já está tomada. Se o treino é à terça e à quinta às 19h00, você já sabe que esse é o seu horário, e gere o resto da agenda em função disso. E tem pessoas à sua espera. Falhar um treino que só você sabia que tinha marcado não custa nada. Falhar um treino em que alguém conta consigo custa. E é essa pequena pressão que faz muita gente aparecer nos dias em que não apetece.

Também sei o que provavelmente o leva a desistir: a ideia de aparecer fora de forma, sentir-se rapidamente cansado, não saber como treinar. É um receio comum e muito mais forte antes de começar do que depois. Num grupo, a atenção divide-se por todos, e há quase sempre alguém ao seu nível, a recomeçar como você. Os outros estão concentrados no seu próprio esforço e a pensar na sua própria respiração. Todas as pessoas que conheço e que procuraram uma modalidade coletiva dizem que o pior foi sempre o primeiro treino, e que o segundo já foi diferente. E que a partir do terceiro o entusiasmo aumenta.

Depois há o lado social, que pesa mais do que se pensa. Passadas duas ou três semanas, você já conhece nomes dos outros, já há conversa antes e depois do treino, já sabe quem costuma chegar atrasado e muitas vezes quem faz o quê fora dali – há também uma boa hipótese de estabelecer bons contactos profissionais. Portanto, ir treinar passa a ser também um encontro com pessoas de quem gosta e isso muda a razão pela qual você vai. Deixa de ir só porque tem de se cuidar e passa a ir também porque quer estar ali. Tudo se torna mais simples e fácil.

Por fim, você vê e sente a sua evolução. Numa corrida, antes nem 10 minutos aguentava, agora já faz 30 sem parar. Isto não é de todo teoria. Por isso, esta semana, em vez de se inscrever num ginásio para treinar sozinho, procure um grupo: corrida, futebol amador, padel, aula de grupo, clube de caminhada...

Escolha o que ficar mais perto de casa ou do trabalho, porque a distância é a desculpa mais fácil de arranjar. E vá sem hesitar, sem esperar por estar mais em forma para ir. É essa primeira vez que todos irão aplaudir. Eu, deste lado, já o faço.