Sobre deixar de treinar nas férias

Pedro Lucas

Diretor das revistas 'Men's Health' e 'Women's Health'

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Há quem passe as primeiras semanas de férias sem pisar um ginásio, sem calçar uns ténis de corrida, sem desenrolar o tapete de ioga trazido “só para descargo de consciência”, e se sinta culpado por isso. Diz-me quem o faz que parar de treinar lhes dá a sensação de estar a estragar tudo o que fez durante o ano e que temem perder a boa forma em que se encontram.

Considero que é uma sensação enganadora. Ao parar ou não praticar tanto desporto durante as férias, está-se “apenas” a descansar corpo e mente. E a diferença entre as duas coisas é maior do que parece. Todos sabemos que há quem treine por questões de saúde, mas que também há muito boa gente a fazê-lo meramente por questões estéticas. É inegável. Mas vou focar-me apenas na primeira opção.

Quem pratica desporto pelo menos duas ou três vezes por semana sabe bem que um corpo em movimento é um corpo que pensa melhor, dorme melhor, envelhece com mais jovialidade. Por isso, custa-me ver tanta gente disciplinada a arruinar as férias para não ter este sentimento de culpa por não treinar. Malas com sapatilhas que acabam nunca usar. Treinos de HIIT feitos à pressa no quarto do hotel, antes de o resto da família acordar. Aplicações a lembrar que “ainda não treinaste hoje”. Percebo tudo isto, mas vejo uma diferença enorme entre gostar de treinar e ter medo de parar.

E convém ser claro: isto não é defesa do sedentarismo, nem romantização da preguiça. É o reconhecimento de que o verdadeiro atleta – tanto o amador como o profissional – é aquele que sabe parar sem se sentir culpado. E que tem toda a noção de equilíbrio da vida.

Um mês sem ginásio não desfaz um ano de hábito. Devia ser óbvio, mas algumas pessoas vivem rendidas ao mito da fragilidade dos progressos e esquecem-se de que o corpo humano foi desenhado para alternar esforço com pausa. Até porque os músculos não crescem no treino, mas sim no descanso! Não é poesia motivacional, é fisiologia básica. Por isso, sem contradição, é possível continuar a ter um estilo de vida saudável e ainda assim aproveitar ao máximo as férias com a família e amigos. E tudo isto sem sentimento de culpa, pois acredito que um hábito que se desfaz com umas semanas de pausa nunca foi hábito. E um estilo de vida que não sobrevive a uma pausa não é estilo de vida. É uma outra prisão.

Tudo isto não significa que defenda que se deva parar de praticar desporto nas férias, até porque sei que para muitas pessoas é o momento em que efetivamente têm mais tempo livre para recomeçarem a cuidar de si. E isso é de louvar. Só me faz alguma confusão colocar isso como prioridade máxima mesmo de férias. Treinar nas férias para manter, sim; treinar com a mesma regularidade e prioridade dos outros dias, não. O corpo e a mente precisam de descanso e, muito provavelmente, a família pede presença total.

Setembro trará o regresso. Mais relaxado, realizado e bronzeado, e terá tempo de voltar às suas rotinas. Sempre com a convicção reforçada de que a verdadeira disciplina não se mede pelos dias em que se treina, mas sim pelo equilíbrio como que os coloca em prática. Boas férias!

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