Enquanto decorre o maior espetáculo do futebol mundial, há uma franja de adeptos que vê este evento com um olhar diferente. Para eles não é apenas “a” maior competição de futebol do mundo. É um sonho.O sonho de um dia estar naquele relvado. O sonho de representar a sua nação. O sonho de marcar um golo e ouvir um país inteiro a gritar o seu nome. O sonho de dar entrevistas. O sonho de distribuir assinaturas em camisolas e bolas. O sonho de levantar o troféu com milhões a assistir.Não me refiro aos jogadores que hoje disputam o Mundial.Refiro-me aos milhares de crianças e jovens do futebol de formação que, dia após dia, treinam com dedicação, dão o seu melhor em cada jogo, em cada treino e, com o apoio das suas famílias, mantêm vivo esse sonho. Para eles, o Mundial não é apenas um evento de futebol. É um destino que acreditam poder alcançar.Segundo dados divulgados pela Federação Portuguesa de Futebol atingiu-se, em 2025, um novo máximo de praticantes federados de futebol: cerca de 240 mil.São 240 mil sonhos. 720 mil se contarmos com os pais. Mais de um milhão de sonhos se contarmos com os avós. Os pais e avós também sonham. E alto. E também são atletas. Fazem ginásticas diárias para chegar a horas aos treinos. Em alguns casos (muita) ginástica financeira para suportar os custos para alimentar este sonho. Percorrem-se - e paga-se combustível em conformidade - quilómetros para treinos, jogos e torneios. Compram-se e renovam-se equipamentos. É sempre necessário um grande porta-moedas para comidas, bebidas, lanches, almoços, estadias, fotografias de torneios. Há sempre uma rodada para hidratar, uma bifana para trincar, mais uma fotografia para ficar guardada no saco. Sim. Estes pais e avós são grandes atletas. Só não são federados.Mas são os pais e avós que alimentam estes sonhos. Também sonham em ver os seus filhos e netos no relvado do Mundial. Sonham em vê-los marcar um golo e ouvir o país inteiro a gritar o seu nome. Sonham em vê-los a dar entrevistas. Sonham em vê-los distribuir assinaturas em camisolas e bolas. Sonham em vê-los a levantar o troféu.Só que por vezes estes sonhos são mais do que isso. Transformam-se em pressão. Pressão para treinarem melhor. Para jogarem mais. Para integrarem o melhor clube. Fazem-se exigências. Às crianças. Perguntas. Aos misters. Até aos dirigentes. Pagam-se treinos extra. Incentiva-se uma competitividade pouco saudável em alguns casos. Exige-se. Pressiona-se. Provoca-se ansiedade. A questão é que deste mais de um milhão de sonhos, só menos de 1% dos mini-jogadores é que lá chegarão (assumindo esta estimativa como muito otimista). Apenas 1% poderá estar próximo de viver este sonho. E os restantes 99% ficam pelo caminho. Ficam pelo caminho porque o futuro que lhes está destinado nada tem a ver com futebol por falta de habilidade. Ou porque crescem e se fartam de perder convívios sociais por causa da bola. Ou porque se lesionam (em alguns casos por sobrecarga física – lá está, a pressão novamente). Ou simplesmente porque não aguentam esta pressão. Porque percebem que o sonho há muito que deixou de ser só um sonho. Pelo menos deles.A estes 99% de praticantes de futebol de formação que ficam pelo caminho, o sonho pode continuar a passar pelo futebol, mas não necessariamente enquanto jogadores. Alguns poderão ser treinadores, árbitros, dirigentes, fisioterapeutas, jornalistas desportivos, videógrafos, fotógrafos. Outros serão apenas adeptos apaixonados. E está tudo bem.Se esta passagem pelo mundo do futebol, lhes ensinou a ser melhores pessoas, mais respeitadoras, mais justas e mais disciplinadas; se lhes ensinou a trabalhar em equipa, perseguir objetivos e a lidar com vitórias e derrotas. O futebol ganhou. Porque nem todos os sonhos terminam com uma taça erguida perante milhões de pessoas. Alguns cumprem-se, simplesmente, na pessoa que se formaram ao longo do caminho.