Futebol, o último sítio onde ainda não se escolhe o final

Pedro Lucas

Diretor das revistas 'Men's Health' e 'Women's Health'

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Na antevisão da semana em que termina o Mundial 2026, depois do tanto que se falou sobre Martínez, Cristiano, Gonçalo Ramos e afins, o chip muda rapidamente para a Liga portuguesa, para as novas contratações e para o fervor até ao fecho do mercado de transferências. Ora, talvez seja um bom momento para lançar uma pergunta que raramente fazemos, talvez porque a resposta seja demasiado desconfortável: por que é que continuamos a ver futebol?

A verdade é que é o desporto-rei. Concordo. Mas por que será que se sofre ou vibra tanto com ele? Ele que nem sempre é bonito ou justo. A nossa equipa nem sempre ganha. Tem ao seu redor um sem-fim de ses. Será que gostamos tanto de futebol porque é uma das poucas formas de entretenimento em que aceitamos, à partida, a possibilidade séria de acabarmos frustrados? Sente-se aqui ao meu lado, e pense comigo…

Compramos um bilhete para o jogo ou ligamos a televisão para o ver – a pagar –, ou atravessamos meio país para acompanhar a nossa equipa e, no fim, podemos regressar a casa com a sensação de que desperdiçámos o nosso dia. E, ainda assim, voltamos a repetir tudo na semana seguinte!

É um comportamento estranho, não acha? Sobretudo numa época em que tudo parece desenhado para evitar precisamente essa sensação. Por exemplo, se uma série na Netflix demora demasiado a prender-nos, mudamos para outra. Se um filme abranda, pegamos no telemóvel para ver o que se passa nas redes sociais. Se um restaurante nos desilude, dificilmente lhe damos uma segunda oportunidade. Vivemos rodeados de algoritmos que prometem conhecer os nossos gostos melhor do que nós próprios, eliminando o risco da escolha errada. Mas o futebol continua a resistir a esta lógica.

Não há algoritmo que garanta uma vitória. Não há Inteligência Artificial capaz de evitar um golo aos 95 minutos. Não há subscrição premium que compre uma defesa impossível ou um remate ao poste que entre em vez de sair. Talvez seja precisamente isso que nos mantém ligados ao jogo. Durante 90 minutos, somos obrigados a aceitar aquilo que a vida moderna tenta esconder, o facto de nem tudo depender da nossa vontade. Há sempre espaço para o acaso, para o erro, para a surpresa e, infelizmente, para a desilusão. Aliás, é curioso que um desporto tantas vezes acusado de provocar sofrimento seja também um dos maiores fabricantes de esperança.

Todos os adeptos conhecem a sensação. A época anterior terminou mal, perderam-se jogadores importantes, o rival parece mais forte, os especialistas não acreditam,mas basta chegar agosto para tudo recomeçar. Há sempre um novo treinador, um jovem promissor, uma contratação inesperada ou simplesmente a velha convicção de que “este ano é que vai ser”.

Talvez seja por isso que o futebol sobrevive a todas as mudanças. Sobreviveu à televisão, à internet, às redes sociais, às plataformas de streaming e sobreviverá às próximas revoluções tecnológicas. Porque oferece uma coisa que nenhuma delas consegue reproduzir, a emoção de esperar por um desfecho que ninguém conhece. Provavelmente, o futebol (ainda) é o último sítio onde ainda não conseguimos escolher o final.

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