E viver como um nórdico?

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Portugal celebra um feito que muitos invejam: em 2024, a esperança média de vida estava nos 82,7 anos, mais do que a média da União Europeia. Mas antes de abrirmos champanhes e brindarmos a uma sociedade que envelhece, é preciso olhar para um detalhe que pesa tanto quanto o número de anos vividos: quantos desses anos são realmente vividos com saúde e autonomia?

Os números dizem que, em média, os portugueses têm cerca de 8,4 anos de vida “saudáveis” após os 65, aqui um pouco abaixo da média europeia (cerca de 9,4 anos). Ou seja, grande parte do tempo que ganhamos com os avanços da medicina e dos cuidados de saúde pode estar a ser passado com limitações físicas ou dependência, em vez de independência e qualidade. Essa distinção entre viver mais e viver bem é, hoje, um dos maiores desafios das sociedades modernas. E Portugal está na proa!

Ao contrário dos nórdicos que tantas vezes vemos a treinar alegremente com 70 e 80 anos, em Portugal o mais comum nestas idades é estar em lares. E este é o verdadeiro paradoxo da longevidade portuguesa: um país capaz de assegurar vida longa, mas ainda aquém no que toca à adoção consistente de estilos de vida que preservem a saúde até idades avançadas.

O sedentarismo continua a ser significativo, os níveis de atividade física estão abaixo do desejável e os padrões alimentares, embora herdeiros de uma tradição mediterrânica reconhecida como a mais saudável, têm sido progressivamente substituídos por opções processadas e calóricas. A prevenção permanece, demasiadas vezes, subordinada à lógica do tratamento.

Apesar de Portugal dispor de condições climáticas, geográficas e culturais que poderiam favorecer um modelo semelhante ao dos países nórdicos, ainda está longe de ter uma sociedade que integra o movimento, o contacto com a natureza e a prática regular de exercício físico. O envelhecimento ativo não deve ser apenas um conceito inscrito em documentos estratégicos, mas sim uma prática socialmente valorizada. Portanto, o desafio que se coloca à sociedade portuguesa é claro. Não basta celebrar o aumento da esperança média de vida, é imperativo ambicionar mais anos vividos com autonomia, lucidez e participação.

É preciso que se entenda de vez que viver mais anos com qualidade é, em grande parte, uma construção acumulativa. Cada ano de inatividade ou de excessos tem a sua consequência. Inversamente, cada escolha saudável funciona como um investimento silencioso no futuro. Não se trata de perseguir uma juventude eterna, mas de preservar autonomia, lucidez e capacidade de participação.

Portugal já demonstrou que sabe acrescentar anos à vida. Agora, cada português tem diante de si uma decisão simples, mas exigente: transformar esses anos num tempo de vitalidade ou resignar-se a vivê-los com limitação. Será que não tem mesmo 30 minutos, três vezes por semana, ia para caminhar, nadar, andar de bicicleta? Será que não consegue fazer algumas alterações nos hábitos alimentares, de forma a diminuir as probabilidades de doenças cardiovasculares e metabólicas? E o que faz para dormir melhor e gerir o stress?

Deixo-o com estas perguntas, lembrando que envelhecer com autonomia constrói-se, sobretudo aos 30, aos 40 e aos 50 anos. Porque se a longevidade é uma vitória, a longevidade saudável é a meta.

Nota: Sempre que tiver o privilégio de escrever neste espaço, trarei novidades sobre modalidades ou novos hábitos saudáveis. Desta vez, o destaque vai para a modalidade do momento: o HYROX. É uma mistura de resistência cardiovascular com força funcional, duas capacidades fundamentais para saúde a longo prazo. Ao contrário de competições muito técnicas, é relativamente simples de treinar e progredir. Poderá assistir à primeira competição em Portugal de 1 a 3 de maio de 2026 na Feira Internacional de Lisboa, no Parque das Nações, Lisboa.

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