Há uns tempos, neste mesmo espaço, abordei o tema “canetas para emagrecer”, mas recentemente têm-me surgido mais questões relacionadas com este novo método que, ao que parece, não para de crescer em número de utilizadores.
Já o escrevi e repito: nunca concordei com o uso destas “canetas” por quem não tem diabetes, obesidade clínica ou qualquer indicação médica que o justifique. Usar Ozempic ou Mounjaro porque “toda a gente está a usar e a emagrecer”, porque está na moda ou porque é mais fácil do que mudar hábitos, continua a parecer-me um erro. Mas a realidade impôs-se: milhares de portugueses estão neste processo, com ou sem razão clínica, e fingir que isso não está a acontecer não ajuda ninguém. Por isso, há que falar sobre o que fazer se já está a tomar, porque há um problema sério que quase ninguém está a explicar às pessoas.
Estes fármacos fazem perder peso, isso é facto. O que poucos dizem é que uma parte significativa desse peso perdido é massa muscular, não só gordura. E isto não é um pormenor técnico para especialistas discutirem entre si. Quem está no processo, tem de levar mesmo a sério quando estes lhes dizem que é fundamental fazer treino de força, consumir proteína e descansar. É um problema real, com consequências no dia a dia se simplesmente derem “o clique do emagrecimento” e não fizerem o resto. Terão mais dores nas costas, nos joelhos, mais cansaço, mais fragilidade. E quanto mais idade tiverem, pior. A partir dos quarenta e poucos anos, e sobretudo depois dos cinquenta, o corpo já tem dificuldade natural em manter músculo.
Perder massa muscular nesta fase e não a recuperar é, na prática, envelhecer mais depressa do que devia. Com mais dificuldades. E aqui está o ponto que mais me preocupa: quem está a perder peso rapidamente com estes medicamentos, sem treinar musculação, está a perder músculo que depois é extremamente difícil de recuperar. Não é uma questão de “deixa-me emagrecer que depois recupero o músculo quando quiser”. A partir dos quarentas e cinquenta anos, o corpo não responde da mesma forma. O que se perde nestes meses pode demorar anos a reconstruir, se é que se reconstrói por completo.
A solução não é complicada, mas exige disciplina: treino de força, a sério, pelo menos três a quatro vezes por semana. Não falo de caminhadas ou de exercício ligeiro. Falo mesmo de levantar ferro no ginásio, de trabalhar os grandes grupos musculares, de dar ao corpo um motivo para preservar o músculo que ainda tem, em vez de o consumir juntamente com a gordura.
Depois há a questão da proteína, que também costuma ficar esquecida. Quem está a emagrecer rapidamente precisa de ingerir mais proteína. E quando a alimentação não chega, um suplemento de whey ou proteína vegetal para quem não come produtos animais, faz a diferença. O objetivo é dar ao corpo os blocos de construção que ele precisa para não recorrer ao músculo como fonte de energia.
E há um terceiro é fundamental ponto que não pode ficar de fora: todo este processo tem de ser acompanhado por um médico, do início ao fim. Não só enquanto se está a tomar o medicamento, mas também na fase em que se deixa de tomar, que é, muitas vezes, o momento mais delicado de todos. É nessa altura que o peso pode voltar, e se o músculo não foi preservado durante o tratamento, volta principalmente a gordura.
Já há personal trainers em Portugal a especializar-se especificamente em acompanhar pessoas que estão a tomar Ozempic ou Mounjaro. E eu continuo a achar que estes medicamentos não devem ser banalizados. Mas para quem já os está a tomar, ignorar a musculação não é opção, é um risco que pagarão mais tarde, com juros - entenda-se dores.