Se aprendi alguma coisa sendo cria de Pedro Almodóvar e Woody Allen é que família nunca é cenário, é personagem principal. É campo de batalha, é colo, é ausência que grita. É o produto mais sofisticado que a sociedade já criou: complexo, imperfeito, desejado, constantemente reformulado.Na temporada de filmes de 2026, saí do cinema com a sensação de que a família virou lente política, histórica e até tecnológica. Em Agente Secreto, o que parecia um thriller me atravessou como drama íntimo. Políticas públicas não são apenas números em planilhas, elas desestruturam casas, corroem vínculos, empurram afetos para o esquecimento histórico. Fiquei pensando em como o amor, mesmo imenso, pode ser engolido por narrativas oficiais que não destinam cuidado às pessoas. O Estado também atravessa a sala de jantar.Já em Valor Sentimental, o que me pegou foi o silêncio entre irmãs. Mundos diferentes que nasceram do mesmo teto. O peso invisível, e às vezes ingrato, de ser a irmã mais velha. A responsabilidade que ninguém nomeia, o desamparo elegante de quem aprende cedo a ser forte. Me reconheci ali. Há uma solidão específica em inaugurar caminhos para que outras caminhem.E então veio Hamnet, com sua delicadeza brutal sobre luto, casamento e destino. A dor que não termina no enterro, mas se infiltra no cotidiano. Amar alguém enquanto se carrega uma perda é talvez uma das tarefas mais difíceis da maturidade. O filme fala de gerações, mas sobretudo daquilo que permanece, mesmo quando tudo parece ruir.Vivemos num mundo cada vez mais tecnológico, acelerado, performático. E, paradoxalmente, a família virou objeto de desejo sofisticado. Não mais apenas instituição, mas projeto. Queremos vender a melhor versão dela: consciente, saudável, resolvida. Um quebra cabeça harmônico no feed. Mas o caminho não é o da perfeição, é o do trabalho. Trabalho emocional. Trabalho de revisão de padrões. Trabalho de interromper heranças que machucam.Nossa geração, a dos 40, talvez seja a primeira a olhar para trás com menos culpa e mais consciência. A terapia virou ferramenta de cidadania. Quebrar padrões familiares deixou de ser rebeldia e passou a ser responsabilidade afetiva. Não para acusar o passado, mas para ampliar o futuro. Porque no fim, família não é sobre imagem. É sobre prática. Não é sobre repetir. É sobre escolher. Não é sobre perfeição. É sobre presença.E talvez a grande sofisticação esteja aí: entender que amar é também revisar, reconstruir, recomeçar. Que vínculos não são dados, são cultivados. E que a nossa melhor versão não é a que parece impecável, mas a que tem coragem de ser consciente. Que a gente siga sofisticando o amor. Não para torná lo raro, mas para torná lo mais verdadeiro..O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicada à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil.O molho brasileiro e, finalmente, a latinidade como desejo de consumo.Miúdos da ponte - cartão vermelho para o racismo