O maior projeto verde de qualquer organização olímpica e 500 mil visitantes por dia em Londres, durante os Jogos Olímpicos. A 27 de julho, vou definitivamente pegar na minha bicicleta. . Sempre gostei da ideia de poder deslocar-me numa cidade pedalando uma bicicleta. Em Lisboa, as sete colinas tornaram o processo mais difícil. E quando cheguei a Londres há seis meses, todos os argumentos me fizeram desistir: a chuva, o perigo, onde guardar a bicicleta. Mas posso dizer que conto pelos dedos das mãos as vezes utilizei o meu chapéu-de-chuva e que as bicicletas que têm vindo a ser instaladas pela cidade me têm convencido. Isso, e o dinheiro que vou poupar. Só me falta fugir ao perigo. Olhar para os dois lados da estrada é já um hábito que criei - quando cheguei a tendência era sempre a errada. Esquerda e direita são dois novos conceitos para mim em Londres. . De bicicleta para a faculdade. Os famosas velocípedes promovidos por Boris Johnson têm sido uma das bandeiras de uma cidade mais "verde". Esta semana foram colocadas mais 2300 em cerca de 160 parques de estacionamento - o novo investimento é principalmente focado nas áreas urbanas que circundam a Aldeia Olímpica, em Stratford. Curiosamente, quando por ali passei, não vi ciclistas. Mas pode ser uma questão de tempo. . De metro para o emprego. E isso sim será um dilema: trabalho no 02 Arena, em North Greenwich, um dos locais onde se realizarão algumas das provas durante os Jogos Olímpicos. Há cerca dois meses tive de frequentar uma formação sobre questões de segurança, onde me foi concedido um cartão sem o qual não poderei entrar no estádio. Devido aos postos de controlo, prevê-se que uma viagem de metro de London Bridge até ao 02, que em média demora meia hora, passe a a fazer-se em uma hora e meia. Os trabalhadores de Londres têm sido inclusivamente aconselhados a evitarem trabalhar durante a altura dos Jogos. Eu não terei grande alternativa. . Stratford, a zona da Aldeia Olímpica, são dois mundos opostos separados por pedaços de metal: de um lado da linha férrea, Westfield - o maior centro comercial da Europa inaugurado em Setembro; do outro, o comércio local, que procura lidar com uma crise económica, as mudanças estruturais provocadas pelo grande evento desportivo no Verão e a feroz concorrência do gigante comercial. "Os Jogos Olímpicos deveriam ser bons para o comércio local, mas com o elevado número de restrições, vai ser complicado", explica Dennis Fisher, representante de um dos mercados de rua de Stratford. . "Querem-nos deslocar cerca de 300 metros. Se já fomos afetados pela vinda do centro comercial, se deixarmos de estar nesta zona de passagem, a situação será pior". Dennis explica-me que as cargas e descargas só poderão ser feitas entre a meia-noite e as seis da manhã durante a altura dos Jogos. "Imagine o que isso implica para os comerciantes locais e para os bancos. Ter de fazer tudo durante a noite", alerta. Mas Dennis sublinha o legado que o evento deixará, do qual só vê pontos positivos. A Organização Local (LOGOC) estima que a transformação do Parque Olímpico num dos maiores parques urbanos europeus crie cerca de 20 mil novos postos de trabalho. . São nove da manhã e quando saio na estação de metro que em Julho irá ser a principal zona de acesso Aldeia Olímpica, seja pelo barulho das máquinas que circulam pelas redondezas, pelos avisos e sinalizações que fazem referência ao Jogos ou até mesmo pelo número de polícias que ali circulam, não há como negar as transformações. Vim para Londres em Setembro, mas é a primeira vez que por aqui passo. As construções são recentes e as gruas visíveis de qualquer ponto. Ainda há muito para terminar até à chegada a Londres do maior evento desportivo mundial . Paulina, empregada de mesa num restaurante no centro de Stratford não se queixa das obras, muito pelo contrário. "Há mais parques de estacionamento, mais polícia na rua e vai ser bom para o negócio. Vamos contratar mais cinco pessoas para trabalhar aqui e já estamos a preparar as encomendas para o elevado número de pessoas que vamos receber a partir de Julho." . Já Benedetta Petrozii, 25 anos, veio Itália há dois anos para estudar em Londres e mudou-se para Stratford há três meses. Diz-me que as rendas subiram bastante nos últimos seis meses - como estou a procurar mudar de casa, soube através de uma agência que têm mesmo dobrado - e receia pela superlotação do interface: "Às vezes é complicado caminhar na estação devido ao elevado número de pessoas. Não sei como será na altura dos Jogos." . A rede de transportes está a preparar-se para os mais de 5 milhões de visitantes que poderão implicar, em dias de maior confusão, mais de 855 mil viagens diretamente associadas aos Jogos. "Caro utente, estamos a trabalhar para melhorar as condições da rede de transportes em Londres, incluindo o upgrade do Metro. Se planeia viajar no próximo fim-de-semana, esteja atento às interrupções nas seguintes linhas." . Todas as quintas-feiras, recebo um email da TFL - empresa responsável pelos transportes urbanos - que me diz quais as linhas de metro vão ser afetadas. Mas houve uma semana em que o e-mail foi diferente: "Estou a escrever-lhe para a informar que a partir do próximo dia 27 de Fevereiro, o "novo bus de Londres" entrará ao serviço na rota 38". . Recuperando a estética dos antigos Routemaster introduzidos nos anos 50, estes novos veículos são 15% mais eficientes que os híbridos que já circulam em Londres e 40% mais que os convencionais de dois andares abastecidos a gasóleo. Mas até agora, nada de mais. Apenas vi passar um cuja inscrição dizia "Another red bus going green for London". Apenas. O novo protótipo e a construção de oito modelos custou 13,3 milhões de euros. Cada novo autocarro custará 370 mil euros - o equivalente ao custo de 150 híbridos já em utilização em Londres. Muitos têm criticado o Mayor Boris Johson pelos elevados custos desta inovação, principalmente porque haverá eleições para a câmara de Londres este mês. . Londres quer fazer dos Jogos Olímpicos de 2012 um projecto sustentável. Começando pela Aldeia Olímpica, passando pelas transformações urbanas na cidade e acabando nos projetos do pós-Jogos, tudo foi definido ao pormenor. "Todos os locais são projetos sustentáveis. Existindo um compromisso inicial e fazendo desse compromisso uma parte essencial no processo de procura de empreiteiros e designers, as soluções acabam por aparecer", disse Daniel Stubbs, responsável do Comité pelo projecto de sustentabilidade. Só parque Olímpico foram plantadas mais de duas mil árvores e 300 mil plantas. . Os caixotes do lixo anti-bomba vieram também responder a uma exigência da cidade de Londres, que procurava uma solução ecológica para o centro financeiro, a City. A Renew Solutions apresentou o projecto, mas o CEO da empresa, Kaveh Memari, explica-me que é mera coincidência a instalação destes caixotes antes dos Jogos Olímpicos. Nos anos 80, depois do IRA ter feito rebentar várias bombas dentro de caixotes do lixo, todos os recipientes foram retirados das estações do metro e de comboio. O projecto da Renew consiste na introdução de ecrãs nos caixotes, com o objectivo de transmitir informação - os lucros virão dos conteúdos e dos patrocinadores. Cada caixote custa cerca de 30 mil euros. "Não seguiríamos para a frente com este projecto, se não fosse viável", explica Memari. A Coca-Cola vai também colocar 260 novos caixotes, procurando sensibilizar os londrinos e turistas a reciclarem as 11 mil toneladas de lixo diariamente produzidas na capital. . Alguns monumentos marcantes da cidade vão também fazer parte deste quadro verde e ecológico. A histórica Tower Bridge está de momento a receber lâmpadas ecológicas que vão permitir reduzir cerca de 40% do actual consumo. O famoso London Eye também sofreu remodelações em 2009, tendo já em conta um projecto sustentável: o novo sistema de iluminação LED permite poupar mais 69% de energia do que o anterior, o projecto de upgrade da cápsula reduziu o consumo de eletricidade e o uso de gás refrigerador foi reduzido em 20%. . No final do mês de janeiro, o Comité Organizador Local (LOGOC) anunciou mais120 mil dormidas em hotéis de 5 estrelas, correspondente a 20% das reservas iniciais. Uma boa notícia para os visitantes estrangeiros que ainda pensam vir a Londres durante os Jogos. E se capital londrina é já a quinta cidade mais cara no que diz respeito a dormidas - segundo um estudo levado a cabo pelo site Hotel.info, referente a Novembro de 2011 - a situação não vai melhorar. O Holiday Inn Express de Stratford, muito perto da Aldeia Olímpica já tem os 163 quartos todos reservados desde o final do ultimo Verão. Sem surpresa. E os preços? Normalmente, o preço médio deste hotel varia entre os 70 e 140 euros, mas durante os Olímpicos serão três a quatro vezes mais elevados. "Se um quarto custar 106 euros por noite, passará a custar 424 euros, por exemplo", responde-me a responsável do outro lado da linha. Sem dúvida, surpresa. . Será esta transformação sustentável suficiente numa cidade com mais de 10 milhões de habitantes? Talvez, mas a hora de ponta promete ser mais caótica do que já é - se em média atravessam a cidade utilizando o tube cerca de um milhão de pessoas todos os dias, imagine-se com mais 500 mil visitantes diariamente. A rotina dos jornais gratuitos, dos iPads, dos Kindle e dos livros - que ocupam o seu próprio espaço todas as manhãs no metro - pode estar em causa durante os jogos. Diariamente, na hora de ponta, tenho muitas vezes de esperar por três metros até conseguir finalmente um pequeno canto entre os milhares que viajam pela manhã. . A partir de Julho, Londres vai mudar. Uma coisa é certa: poderá ser business as usual, mas será certamente mais green. Eu vou finalmente pegar numa bicicleta e pedalar na cidade. Para fugir ao perigo, um colete amarelo e uma luz daquelas bem cintilantes. E, claro, olhar para a esquerda e para a direita.