Morreu Filipe, o "rochedo" de Isabel II que foi recordista consorte

O duque de Edimburgo ficou conhecido pelas gafes e por dizer sempre o que pensava, mas para Isabel II o marido era o maior apoio, ao seu lado durante mais de sete décadas. Morreu nesta sexta-feira, aos 99 anos. E as homenagens sucederam-se.

Numa cena da primeira temporada The Crown, a série da Netflix sobre a rainha Isabel II, a personagem do príncipe Filipe, então interpretada por Matt Smith, insiste em ter aulas de voo. E apesar de todos o tentarem dissuadir - por considerarem a atividade demasiado perigosa para o príncipe consorte -, a insistência dele é tal que Isabel II convence as autoridades a autorizarem o marido a voar. E na terceira temporada da série, é um Filipe já interpretado por Tobias Menzies quem assiste fascinado à chegada do homem à Lua e depois não esconde a excitação por receber em Buckingham Palace Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Michael Collins. Nem a desilusão quando descobre que afinal os seus heróis são homens comuns, que parecem mais interessados em saber como é a vida do marido da rainha do que em contar os seus feitos no espaço.

No pequeno ecrã, o príncipe Filipe, duque de Edimburgo, aparece como um homem de caráter forte, pouco conformado com a necessidade de ficar na sombra da rainha, mas que rapidamente percebe como ela precisa do seu apoio. A realidade não terá andado muito longe da ficção. Apesar da rebelião do jovem oficial, a verdade é que desde o casamento com a então princesa Isabel, em 1947, mas sobretudo desde a chegada da mulher ao trono, cinco anos depois, que Filipe Mountbatten se tornou o "rochedo" da monarca. No outono de 2017, o duque de Edimburgo retirava-se da vida pública, mas não das polémicas. Em janeiro de 2019, esteve envolvido num acidente rodoviário perto de Sandringham, dias antes de ser visto ao volante de novo. E sem cinto. Internado por várias vezes nos últimos anos - a última das quais durante um mês em março, Filipe morreu nesta sexta-feira, aos 99 anos, anunciou o Palácio de Buckingham.

"É com profundo pesar que Sua Majestade a Rainha anuncia a morte do seu amado marido, sua alteza real o príncipe Filipe, duque de Edimburgo", lê-se no comunicado, segundo o qual o príncipe "morreu tranquilamente esta manhã no castelo de Windsor".

Nas suas longas décadas como príncipe consorte, o duque de Edimburgo habituou os britânicos às suas frases explosivas. "Ele diz sempre o que pensa, nem sempre com muito tato", admitia há uns anos a prima, a condessa de Mountbatten, sublinhando que "as pessoas acabam por esperar isso dele. E gostam".

Infância errante

O príncipe Filipe da Grécia e Dinamarca nasceu na ilha de Corfu em 1921, o mais novo de cinco filhos e o único rapaz. No ano seguinte ao seu nascimento, o tio, o rei Constantino da Grécia foi forçado a abdicar e o pai de Filipe foi detido, antes de ser banido do país para sempre. Foi uma infância errante a do príncipe, passada entre França, Inglaterra e Alemanha. Obrigado desde cedo a enfrentar a vida sozinho, essa experiência deu-lhe uma confiança que muitos confundiam com arrogância. Terminado o liceu, já em Inglaterra, onde viveu com a avó e o tio, George Mountbatten, Filipe ingressou na academia naval britânica.

Alto, loiro, exímio em desporto, sobretudo polo e críquete, não espanta que o jovem cadete tenha cativado as atenções da jovem Lilibet, como era tratada a filha mais velha do rei Jorge VI, então com apenas 13 anos. Os dois conheceram-se em 1939, numa visita da princesa à academia. Primos em terceiro grau, começaram a trocar cartas, com a guerra a encarregar-se de os separar durante alguns anos. Na marinha, a carreira de Filipe foi fulgurante. Promovido a primeiro-tenente, esteve presente na baía de Tóquio quando os japoneses assinaram a rendição.

Após anos no mar, foi um Filipe diferente e mais maduro o que voltou a Inglaterra. Mas o afeto por Isabel não desaparecera. E só cresceu, sobretudo depois do Natal de 1943, passado com a família real e em que o jovem oficial trocou gargalhadas e dançou a noite toda com a princesa. Herói de guerra e príncipe grego com raízes dinamarquesas, Filipe deveria ter tudo para ser um bom partido, mas os casamentos das irmãs com alemães, alguns deles com ligações aos nazis, e o facto de não ter nacionalidade britânica eram entraves inegáveis à união. O primeiro foi abafado ao máximo, com as três irmãs vivas (uma morrera num acidente de avião quando estava grávida) do príncipe a não serem convidadas para o casamento. O segundo resolveu-se com a naturalização como britânico. Filipe Schleswig-Holstein- Sonderburg-Glucksberg renunciava aos títulos de nobreza e ao nome de família para passar a chamar-se apenas Filipe Mountbatten.

Olhado com desconfiança pela velha guarda de Buckingham que não só o considerava demasiado rude como duvidava mesmo da sua fidelidade a Isabel, nos últimos mais de 70 anos Filipe provou que estavam todos errados. Mais antigo príncipe consorte real, esteve ao lado de Isabel nos momentos mais difíceis - do anúncio da morte do pai, numa visita de ambos ao Quénia em 1952, à morte da princesa Diana, passando pelo incêndio que destruiu o Castelo de Windsor. E teve de fazer alguns sacrifícios. Não só teve de abdicar da carreira na marinha mas também de dar o seu nome à família, que continuou a chamar-se Windsor. Uma decisão que terá provocado a sua fúria: "Sou o raio de uma amiba! O único homem neste país que não pode dar o nome aos filhos!"

Mas aceitou e ao longo dos anos encontrou muitas ocupações, do desporto à solidariedade social. Patrono de mais de 780 organizações, continuou ligado a elas mesmo depois da reforma, mas sem "ter um papel ativo, indo aos eventos".

Esta sexta-feira, após o anúncio da sua morte, foram muitos os britânicos que deixaram flores junto ao Palácio de Buckingham, onde a bandeira foi colocada a meia haste. E centenas prestaram-lhe homenagem no Castelo de Windsor.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, lembrou um homem que "inspirou as vidas de inúmeros jovens", sublinhando que o príncipe Filipe "ganhou o afeto de várias gerações aqui no Reino Unido, na Commonwealth e no mundo". Já o arcebispo da Cantuária, Justin Welby, recordou como o duque de Edimburgo "colocou sempre os interesses dos outros à frentes dos seus e, ao fazê-lo, deu um magnífico exemplo de serviço cristão".

Do Canadá à Índia, de Israel ao Quénia, passando pela Rússia e os EUA, não faltaram homenagens a Filipe. O primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau, lembrou "um homem de grandes convicções, que se regia por um sentido de dever para com os outros", enquanto o chefe do governo indiano, Narendra Modi, saudou a sua "carreira militar distinta".

Segundo Buckingham, é ainda cedo para dar pormenores sobre o funeral do príncipe Filipe, mas o Royal College of Arms, que lida com as proclamações reais, avançou que não será um funeral de Estado.

helena.r.tecedeiro@dn.pt

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