«Tentei ser músico, mas rapidamente perdi a esperança»

David Ferreira e música são sinónimos. Depois de uma carreira de 29 anos na edição fonográfica - primeiro na Valentim de Carvalho, empresa fundada por um tio-avô, depois como rosto da Emi - apaixonou-se pela rádio, onde assina dois programas de autor - A contar e A cena do ódio - na Antena 1. O que começou por ser um projeto para uma dúzia de programas já vai na 233ª edição. Música portuguesa e cantores esquecidos, acompanhados sempre por histórias, a lembrar os dias da rádio.

Em pequeno, contava-lhe a mãe, sabia distinguir Ravel de Bartok aos primeiros acordes. Adolescente, sonhava-se o empresário dos Beatles responsável por um regresso lendário da banda; aos 20, vendia discos na loja da Valentim de Carvalho, na Avenida de Roma, em Lisboa, trocando o curso de História pelo prazer de apresentar obras-primas a clientes que ainda hoje o recordam. Filho de David Mourão-Ferreira, houve um tempo, breve, em que quis ser poeta e escritor, mas temeu a comparação a que não conseguiria escapar. E a política, que a dada altura pensou seguir, redundaria uma enorme desilusão. Venceu a música. Ao longo de quase três décadas na edição fonográfica, lidou com artistas maiores e menores e decidiu sobre carreiras - teve muitas na mão. No fim, saiu com a amargura duma batalha perdida contra o download ilegal e em confronto com os poderes absolutos que foram tomando conta das editoras. Na rádio, onde é livre, consome a semana a preparar os programas que assina. Começou por aí esta entrevista. Foi no Hotel da Estrela em Campo de Ourique, o bairro onde vive, lisboeta nascido no Hospital dos Empregados do Comércio, ao Caldas, há 60 anos.

De segunda a sexta, na Antena 1 passa o A contar, uma rubrica de cinco minutos, muita música portuguesa e cantores esquecidos, uma viagem ao tempo da rádio ilustrada com um história, por vezes pessoal. É assim há mais de três anos. O que faz um bom programa de rádio?
Como ouvinte, procuro o que me prende e me revela; e dificilmente me deixo prender pelo que já sei. Como fazedor, gosto de descobrir e de suscitar esquinas e reflexos entre histórias de origens diferentes, entre histórias e músicas, entre músicas e músicas. Fico contente se consigo chegar onde quero; fico feliz se o ponto de chegada me surpreende.

A que fontes vai buscar tantas histórias?
Sou um pouco caótico nas buscas e nada tribal na escolha das fontes. Googlo muito. Vivo rodeado de livros e faço perguntas a livreiros e alfarrabistas. Às vezes lembro-me duma coisa antiga que requer confirmação. Acontece ter sorte mas também já perdi horas com pistas falsas e histórias engraçadas que se revelam improváveis. O bom é que um beco sem saída para um tema pode abrir uma janela inesperada para outro. Estou sempre a pedir socorro à memória generosa do Vítor Pavão dos Santos e do Hugo Ribeiro.

Que feedback tem de um programa em que passa canções de outros tempos?
Percebi que as rubricas eram ouvidas quando uma vizinha me disse no metro: «Imagine que eu não fazia ideia de que a Mariquinhas era prostituta!» É bom ter feedback, mas gostava de ter mais resposta quando arrisco hipóteses que me parecem novas; por exemplo, quando disse que me parece que o António Ferro e o Scott Fitzgerald chegaram na mesma altura, e sem influência entre si, à identificação dos anos 20 como «A Idade do Jazz».

Também na Antena 1, A Cena do Ódio, título de um poema de Almada Negreiros, já leva 235 edições. A rádio foi-se tornando uma compulsão?
A Cena do Ódio pode levar - entre preparação, gravação e mistura - umas doze horas ou mais; é o maior stress da minha semana. Durmo mal muitas vezes na noite antes de o gravar; mas depois tenho a sorte de encontrar em estúdio o engenho e a generosidade do produtor, António Santos, para ultrapassar obstáculos e ir para lá dos meus desejos. Uma vez, no verão, estava em casa a trabalhar num programa de canções sobre pássaros. Fiz uma pré-montagem no computador com muitas canções e alguns cantos de aves; desliguei o som, a certa altura, mas continuei a ouvir um rouxinol ou um melro; era um pássaro, à janela, a responder às minhas gravações.

O radialista de hoje é sobretudo conhecido por ter dirigido, de 1983 a março de 2007 a EMI-Valentim de Carvalho e depois a EMI Portugal. O percurso e a história começam em 1978, quando assume com o primo Francisco Vasconcelos a parte editorial da empresa fundada por Valentim de Carvalho, tio avô-materno de ambos. Que episódios recorda desses primeiros tempos?
Tantos. Nesses anos, havia na Valentim a ideia de que a rádio não gostava de nós. Ou por embirração dos locutores ou porque tinham relações preferenciais com outras editoras. Lembro-me de que quando levei à rádio o primeiro single da Kate Bush, um disco de que eu gostava muito, o comentário de Jorge Pego, que eu não conhecia, foi este: «os ingleses gostam de cada merda!». Saí, é claro, de orelha murcha e a pensar que o melhor seria desistir daquele trabalho. De volta ao escritório, dizem-me que o Jorge tinha passado o disco várias vezes em menos de 2 horas.

Moral da história?
Um bom disco faz milagres - e até amizades que ainda hoje duram.

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