"Tenho pena que a Igreja não tenha falado o suficiente de sexualidade"

Garante que aos 5 anos já sabia que queria ser padre. Correu o país a pregar as conclusões do Concílio Vaticano II, a maior reflexão sobre a Igreja em dois mil anos de história e correu o planeta a falar sobre saúde, sexualidade, luta contra a droga e o papel da instituição no mundo. Falou para padres, bispos, médicos, famílias. Conheceu sete papas, trabalhou com quatro cardeais patriarcas. Uma conversa de duas horas e meia, para ler no domingo de Páscoa, sobre o papel da mulher na igreja e na sociedade, o Papa Francisco, a eutanásia, os abusos sexuais do clero e o tempo que não chega para tudo.

Os móveis escuros estão cheios de livros, documentos, papéis vários. Nas paredes e prateleiras do gabinete pequeno há fotografias com papas, memórias de mais de sessenta anos de sacerdócio. Na secretária, jornais e mais papéis. Depois de coordenar a Pastoral da Saúde e a luta contra a droga em Portugal, depois de viver em Roma e correr mundo, Vítor Francisco Xavier Feytor Pinto é, há 19 anos, prior da igreja do Campo Grande. Aos 65 anos, teve finalmente uma paróquia, como desejava. Hoje, com 84, Monsenhor Feytor Pinto, o homem de voz forte e pensamento rápido, cita documentos papais de cor e trata por tu alguns dos mais altos responsáveis da igreja em Portugal.

Estamos a fazer esta entrevista no dia Internacional da Mulher [8 de março]. É um bom pretexto para dar os parabéns ou para lembrar o que falta conquistar?

Ambos. Por um lado recordar o que já se conquistou, por outro responsabilizar para o caminho que deve ser percorrido. Repare na quantidade de sociedades onde a mulher não tinha posição (até no tempo de Jesus Cristo) e que, ao longo dos séculos, a foram conquistando. Os direitos humanos consagraram a igualdade total entre as pessoas, mas há ainda todo um caminho que é necessário percorrer. Estamos no princípio, ainda, de restituir à mulher toda a dignidade que lhe é devida.

O que falta conquistar?

Falta uma coisa muito importante: que a mulher assuma uma dignidade tal que não possa ser magoada. Por razões económicas, de afirmação pessoal, de interesses - às vezes até escondidos -, por vezes a mulher desrespeita-se a si própria e a sociedade desrespeita-a. A publicidade, por exemplo, usa e abusa da imagem da mulher.

E coisas mais mundanas? Práticas. Como igualdade salarial, por exemplo.

Isso é fundamental. Estamos muito longe da igualdade total entre o homem e a mulher, no trabalho, na aprendizagem, na cultura, na investigação científica, nos vencimentos, no acesso a cargos políticos - muito mais difícil para a mulher do que para o homem.

Concorda com as quotas que garantam números mínimos em várias áreas?

Não. Detesto essa história das quotas. Eu vou pelos méritos e há muitas mulheres com méritos que não lhes são reconhecidos.

E na Igreja? Qual o papel da mulher na Igreja?

A mulher tem um papel importantíssimo na Igreja desde os primeiros séculos. Maria, mãe de Jesus Cristo, foi fundamental no nascimento da Igreja. E, ao longo no primeiro século, as diaconisas foram as melhores colaboradoras dos apóstolos. Na minha comunidade paroquial, se não tivesse muitas senhoras a colaborar, não conseguiria chegar a tanto lado. Só com os homens que trabalham comigo eu não realizaria tudo o que consigo realizar.

Mas há aí uma desigualdade grande: a ordenação de mulheres.

É um problema que deve ser debatido. Mas estamos muito longe de o conseguir aprofundar. Há muita gente que o vê como um problema meramente sociológico mas, se fosse, há muito tempo que estaria resolvido. Trata-se de um problema teológico. Nem Maria, mãe de Jesus, foi ordenada sacerdote. É um problema de teologia, em que vale a pena continuar a refletir.

Até quando? Algum dia será resolvido?

Quem sabe? Nestas coisas, não sou capaz de antever o que é que a reflexão teológica pode conseguir.

É a favor da reflexão teológica em torno dessa e de outras questões? Sem dogmas?

Sou a favor da discussão de todos os problemas.

E da ordenação das mulheres? É a favor?

Não sou nem a favor nem contra. Como estou perante um problema teológico, peço que o aprofundamento da fé ao nível teológico nos diga claramente o caminho a percorrer. Se fosse um problema sociológico e quiséssemos resolver a falta de padres, era facílimo: ordenávamos mulheres. Ou homens casados - embora essa seja uma discussão de natureza pastoral. Mas a ordenação das mulheres é um problema teológico, dificílimo de explanar, porque toda a reflexão assenta na discrição bíblica e na tradição de vinte séculos. Como é que vamos explorar isto ao ponto de podermos dizer, sem mais, que não há problema? Vamos continuar a refletir. Neste problema, João Paulo II foi taxativo, ao considerar sem impossível a ordenação sacerdotal de mulheres.

Se o Papa Francisco dissesse que, a partir do dia X, as mulheres podiam ser ordenadas... Podia fazê-lo?

O Papa pode dizer tudo. Mas não me parece que esteja preocupado com isso. O mundo tem tantos problemas, tão graves, que o Papa tem que os assumir de uma maneira incondicional, sem receio. Se vamos para um fenómeno de diversão, de repente falamos de outras coisas.

Falou há pouco da ordenação de homens casados. E se o papa dissesse que deixava de haver celibato? Concorda? Algum dia isso vai acontecer?

Para mim não se revolucionava nada com isso. Conversemos sobre o sacerdócio das mulheres, óptimo. É um problema teológico, vamos continuar a conversar. Conversemos sobre o celibato do clero, que é um problema pastoral, fácil de resolver. Basta o Papa dizer: «Não há celibato». E deixa de haver problema.

Continue a ler a entrevista ao padre Vítor Feytor Pinto na Notícias Magazine.

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