Mãe de fado

Camané, Hélder Moutinho, Pedro Moutinho. Três irmãos fadistas que, por estas semanas, andam nas bocas do mundo. Esta, no entanto, não é a história deles. É a história antes. De uma menina de Oeiras que se apaixonou por um rapaz da Madragoa, e de como os dois construíram uma família em cima do amor ao fado. Silêncio que agora vai cantar Maria Luísa Moutinho, a mãe dos rapazes.

O miúdo levantou-se da mesa sem pedir autorização. Está certo que os tempos esta­vam a mudar, mas Maria Luísa estranhou a iniciativa, não era aquele o respeito que lhe tinha ensinado em casa. «Vais onde, Ca­mané?» Ele não respondeu, antes aproxi­mou-se dos guitarristas e pediu-lhes um fa­do do Fernando Maurício. Ainda não tinha 10 anos, e não era frequente a canalha da­quela idade encheras sim o peito para se ar­mar em rouxinol. «Quando percebi que ele ia cantar fiquei logo cheia de medo, então e se corresse mal?» Correu bem. «Fiquei to­da derretida. Foi a primeira vez que ouvi o Camané cantar assim em público, logo ele que era tão tímido. Na altura, não me pas­sava pela cabeça que um dia se tornasse fa­dista. Estava contente por ele se ter safado mas aquilo, pensava eu, era uma graça, que só ia acontecer uma vez por acaso.» A casa tremeu em aplausos, só que mãe é mãe: «Quando ele voltou à mesa, ralhei com ele. Disse-lhe que devia pedir licença antes de sair da mesa. E depois dei-lhe os parabéns.»

Para os Moutinhos, ouvir cantar a saudade com embalo de guitarra era ritual de fim de semana. «Como os miúdos eram pequenos íamos normalmente às matinés de domingo numa casa do Estoril. Mas às vezes também saíamos ao sábado à noite, e aí era certo e sabido que o Hélder acabava por adormecer na cadeira ou no sofá, no meio dos casacos e das malas.» Nesse tempo, diz Maria Luísa, as crianças ainda não eram de porcelana. A noite de estreia de Camané aconteceu n"A Cesária, um antigo bordel de Alcântara que na década de sessenta fora convertido em casa de fados, e onde acabam por desaguar os melhores artistas de Lisboa. O primogénito dos filhos de Luísa atirou-se de cabeça para o poço dos leões.

Volvidos todos estes anos, Camané desfia contas ao rosário. «Nessa altura, a minha mãe não cantava em casas de fado, mas ela e o meu pai revelaram-se uma influência essencial para que eu o fizesse.» Foi assim: aos 8 anos, o rapaz contraiu hepatite e passou uns bons meses em casa agarrado ao gira-discos parental. No meio de Beatles, Aznavour e Sinatra encontrou álbuns de Toni de Matos, Amália e Alfredo Marceneiro. «A rádio estava sempre ligada e eu ouvia a minha mãe cantarolar tudo aquilo, ao mesmo tempo que lavava a loiça e fazia o jantar. Tinha o tom e o ritmo certos. E, a ouvi-la, eu comecei a perceber que conseguia ir atrás.» Hélder, filho do meio, e Pedro, o benjamim, hão de contar a mesma coisa. O cozido à portuguesa que marca a memória dos almoços de domingo não era só a comida, era também as canções que depositavam as couves na panela e cortavam os enchidos em pedaços. Desse trauteio doméstico nasceram três fadistagens incontornáveis - a de Camané, que tem agora 49 anos, Hélder, com 46, e Pedro, de 39. Se formos ver bem as coisas, há uma cozinha em Oeiras que também é património da humanidade.

Os rapazes andam agitados por estes dias. Camané atua no próximo fim de semana no Centro Cultural de Belém. Hélder Moutinho lança um novo álbum de originais, O Manual do Coração, a 6 de maio. Pedro Moutinho editou O Fado em Nós no final de Fevereiro (ver caixas). Mas hoje é dia de dirigir os holofotes para quem esteve sempre nos bastidores. É certo que, com os anos, Maria Luísa Moutinho também aprendeu a tomar o palco. Cantou na Bela de Alfama, no Clube do Fado e no Embuçado, raras vezes a ganhar cachet, muitas vezes em festas de beneficência. Agora, de vez em quando puxa a voz para acompanhar as guitarras na Maria da Mouraria, a casa que o filho do meio abriu no Largo da Severa, em Lisboa. «Mas eu só me pus nisto depois de ver os meus filhos cantarem, foram eles que me deram coragem para fazê-lo. E gosto tanto, mas tanto. Mesmo que o fado seja triste sinto uma grande alegria por poder recitá-lo.» O Fado Solidão, Aquela Rua, A Chave da Vida. Músicas que contam histórias e lhe provocam um entusiasmo adolescente. «Levanto-me logo da cadeira aos primeiros acordes, sabes? Não consigo não as cantar.» Tem 71 anos, Maria Luísa. E é uma menina.

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