Nós e o vírus: eremitas de massa?

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Em 1956, no seu livro A Obsolescência do Homem, o filósofo Günther Anders forjou o termo “eremitas de massa”, para descrever as famílias trancadas em casa pela hipnose da televisão.

Mal sabia ele quanto a realidade viria a corresponder ao seu conceito. Confinados, em casa, à exiguidade dos nossos ecrãs digitais, o vírus tornou-nos de facto esses eremitas. Ou não?

A crítica de Anders, retomada muitas vezes nas décadas seguintes, via na TV um meio diabólico para nos tornar consumidores e trabalhadores dóceis. Além de nos isolar em casa, o perverso eletrodoméstico destruiria as relações lá dentro. Em vez de interagirem entre si, os membros de cada família se transformavam numa miniplateia, cuja única relação era com o ecrã.

Ao nos entregar o mundo ao domicílio, processado e empacotado, a televisão seria ainda um anestésico. Fragmentados, miniaturizados e servidos sem qualquer hierarquia, todos os “conteúdos” – para usar o termo de hoje – se equivalem. Um golpe de estado, a boda de uma princesa, um concurso de dança – é tudo para consumir e deitar fora. Estarmos em todo o lado, perto de tudo, só nos deixa mais isolados e distantes.

Nunca me atraíram muito as análises catastrofistas que, como esta, ironicamente se tornaram um cliché, tão anódino como os “conteúdos” televisivos que dissecam. A meu ver sobrevalorizam o peso da tecnologia na formação de um público acéfalo. Que uma parte da sociedade tem vocação para rebanho é inegável – mas já o tinha, bem antes da comunicação de massa. Por outro lado, há sempre quem saiba desligar a TV ou usá-la como alimento para pensar e agir. Ainda não inventaram a tecnologia capaz de anestesiar toda a gente todo o tempo.

Com este grão de sal, porém, o olhar pessimista é útil. A nossa tendência à passividade, se não precisa da tecnologia para existir, pode ser muito favorecida por ela – mais ainda, aliás, na era da internet. Para quem vê o mundo como Günther Anders, a nossa conexão 24/7 torna-nos mais passivos, mais anestesiados e isolados do que jamais o filósofo poderia sonhar. Eremitas de massa: o vírus veio apenas extremar, ou tornar caricatura, o retrato feito de nós em 1956.

Mas até que ponto é mesmo assim? Para já, a internet não é a televisão. Se contém, e até exacerba, muitos dos seus riscos, distingue-se pela interatividade – que, como a própria palavra indica, traz, por inerência, o remédio contra um consumo passivo.

A escolha está, literalmente, nas nossas mãos. Milhões dos “eremitas” do mundo inteiro não têm desperdiçado a oportunidade de usar esta hiperexposição ao virtual de uma forma tudo menos passiva. Não se contentam em trabalhar de casa, lá porque tem de ser, mas, a partir de casa, organizam-se para interagir das formas mais espantosas. Socializar, fazer música ou arte em grupo, ter aulas de tudo e mais alguma coisa são só algumas das atividades de que eu próprio já participei.

O exemplo mais inspirador, no campo restrito da minha experiência pessoal, é o #tech4covid: a plataforma portuguesa que milhares de profissionais já contribuem para aliviar alguns dos dramas trazidos pela pandemia. É uma organização um tanto anárquica, em que cada grupo vai definindo a sua maneira de trabalhar à medida que chegam mais voluntários e as iniciativas vão ganhando corpo. Mas a verdade é que várias delas – entre os quais aquela em que tenho colaborado, o site tools4edu.com – já estão de pé e a melhorar muitas vidas.

Tornados, desta vez a sério, eremitas de massa, não temos de ser nem massa, nem eremitas. A tecnologia não obriga a isso, pelo contrário: permite, se assim o quisermos, mantermo-nos interessados, interventivos, interligados – interativos.

Jayme Kopke é diretor-geral e criativo da Hamlet

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