Quase metade dos europeus desconhecem que a obesidade é uma doença crónica, associando-a mais a má alimentação e a estilos de vida errados do que a uma condição de saúde, concluiu um inquérito da farmacêutica Novo Nordisk que abrangeu mais de 10 mil indivíduos, a que o DN teve acesso.Apesar da obesidade ser classificada como doença crónica pela Organização Mundial de Saúde e por Portugal há mais de duas décadas, nem todos os profissionais de saúde incorporam ainda essa consciência no relacionamento com os pacientes. Uma esmagadora maioria de 82% das pessoas que sofrem desta condição queixam-se de não serem devidamente compreendidas pelos profissionais de saúde, o que também contribui para o sentimento de culpa dos próprios e consequentes problemas de saúde mental. Segundo o inquérito realizado em dezembro de 2025 em cinco países, só 18% dos obesos inquiridos (mais de 2 mil) se dizem compreendidos e devidamente acompanhados pelo sistema, mesmo que hoje se saiba que em 70% dos casos, a obesidade tem uma origem genética.Este dado interpela o próprio Sistema Nacional de Saúde a mudar a sua abordagem, reconhece Paula Freitas, presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo, em entrevista ao DN. Há, sobre este ponto, uma dúvida que é importante esclarecer: É porque se come mal e se faz pouco exercício que se é obeso ou é porque se sofre de obesidade que se come mais e pior e as pessoas se mexem menos? Para Paula Freitas não há dúvida de que a obesidade resulta da própria doença, que entre outras coisas, “causa uma desregulação ao nível do hipotálamo do mecanismo que regula o apetite e a saciedade”. É essa desregulação que leva a uma sensação de fome constante, que conduz a maior consumo de alimentos e a um gradual aumento de peso, explica a médica. “Embora a dieta e o exercício sejam fundamentais, a questão central é que não são o tratamento para a obesidade”. Tal como a diabetes requer uma abordagem farmacológica e comportamental, também a obesidade só pode ser tratada por essa via dupla, considera.As conclusões do inquérito são importantes para ajudar a desmontar a narrativa de que a obesidade se resolve apenas com alteração de estilos de vida, sustenta o diretor-geral da Novo Nordisk Portugal, Nicolas Villar. “Enfrentar a obesidade exige coragem e persistência, mas não deve ser uma viagem solitária. Ao mudarmos o foco da perda de peso individual para o bem-estar geral, e ao promovermos comunidades de apoio fortes, podemos transformar este desafio num compromisso coletivo. É tempo de abandonar a culpabilização e avançar para uma abordagem à obesidade mais empática, eficaz e baseada na ciência”.A inovação científica nesta área evoluiu muito nos últimos anos, e hoje há soluções que até há poucos anos não existiam. “Atualmente temos em Portugal quatro fármacos para o tratamento da obesidade, quando antes só dispunhamos da cirurgia, sendo que nem todos os doentes obesos cumprem os critérios para a cirurgia”, contextualiza a clínica Paula Freitas, também ex-presidente da associação para o estudo da obesidade.A importância de diagnosticar e intervir atempadamente é fulcral, porque “a obesidade tem mais de 220 doenças associadas e alguns tipos de cancro, relacionadas com o que chamamos de ‘4 M’: alterações metabólicas (diabetes, colesterol alto, hipertensão, doenças cardíacas, infertilidade, etc), doenças mecânicas (lombalgias, apneia do sono, etc), mentais (ansiedade, depressão) e monetárias”. Paula Freitas explica: “o tratamento da obesidade é caro, mas infinitamente mais barato do que tratar o rol de patologias associadas”.Por isso, a endocrinologista defende uma abordagem multidisciplinar a estes doentes e a criação de consultas de obesidade, também com as componentes cognitivo-comportamental e de nutrição. “Se não as tratarmos, estas pessoas vão sofrer vários custos pessoais de saúde, económicos e sociais e o SNS também”. Sabe-se que existe um ciclo vicioso entre a obesidade e a pobreza, por um lado porque a obesidade reduz as condições de sucesso material, por outro porque a pobreza também induz comportamentos alimentares e de saúde mais nocivos. E, avisa, deve-se começar a atuar quando se está com excesso de peso e perímetro abdominal exagerado.Sobre as respostas públicas existentes, a médica refere que “não há multidisciplinaridade em todo o país, mas já há em alguns serviços hospitalares e esse tem de ser o caminho”.A degradação da saúde mental é uma consequência comum, também atestada no inquérito europeu. “89% das pessoas que vivem com obesidade relatam consequências negativas na sua saúde mental, sendo que 72% classificam esse impacto como moderado a grave. Já 86% dos inquiridos sentem que a doença afeta as suas interações sociais, com 66% destes a referirem um impacto moderado a grave”.Uma larga maioria dos inquiridos reconhece o estigma associado à obesidade, com 85% a considerar que as pessoas que vivem com a doença enfrentam preconceito de grau moderado a muito elevado. Além disso, 81% acreditam que as expectativas culturais negativas em relação à imagem corporal e ao excesso de peso têm um impacto significativo nos indivíduos.A obesidade é um dos maiores desafios de saúde atuais, afetando 1 em cada 7 pessoas em todo o mundo, prevendo-se que impacte 2 mil milhões de pessoas na próxima década. Para muitas pessoas, isto significa viver com menos saúde, menos qualidade de vida e privação de bem-estar, representando um peso social e económico significativo para a sociedade.