White Heather. A gata ao serviço de Sua Majestade

Vitória, Rainha de Inglaterra e Imperatriz da Índia, não partilhava o poder nem os segredos de Estado mas fez de uma gata a dilecta companhia do seu gabinete. Em pleno século XIX, seria esta mesma monarca uma das primeiras vozes a erguer-se em defesa dos direitos dos gatos.

Não são presença frequente nos retratos reais. Demasiado independentes ou simplesmente associados à necessidade de caçar roedores nos vastos corredores dos palácios, tarefa tão pouco consentânea com a majestade da realeza, os gatos cedem quase sempre a vez a cães de caça e a cavalos com pedigree. Em Portugal como na distante Rússia, no século XVI como na atualidade. Mas se recuarmos ao século XIX e à corte da Rainha Vitória encontraremos algumas exceções que confirmam tal regra.

Nascida em 1819, Vitória foi uma criança solitária a quem um "exército" de bonecas e pequenos animais serviram de companheiros de brincadeiras no Palácio de Kensington, em Londres, distraindo-a da ansiedade materna e dos rigores da educação para a Coroa. Já rainha e casada com o Príncipe Alberto de Saxe-Coburgo, seu primo, não seguiu os exemplos dos tios da dinastia de Hanover e cultivou uma vida familiar mais intimista, de que fizeram parte muitos cães, pássaros e alguns gatos. Pela primeira vez na História dos animais reais, estes últimos tiveram a honra de serem retratados, agora em fotografia: individualmente sobre uma almofada (como aconteceu a Snowdrop, o gato branco de um dos nove filhos de Vitória, príncipe Leopoldo) ou ao colo de um membro da família real. Na década de 1870, a nora da Rainha, Alexandra, tornar-se-ia a primeira Princesa de Gales a ser oficialmente retratada com um animal desta espécie.

Ao longo do reinado e da sua longa viuvez, Vitória teve vários gatos, mas para a História ficaria a última, uma gata branca, muito provavelmente de raça persa, White Heather, que lhe fazia uma doce e pouco exigente companhia nas noites em que a rainha, cada vez mais frágil, se dedicava à leitura e análise da correspondência que lhe chegava dos mais variados pontos desse Império em que o Sol nunca se punha. Motins sangrentos na Índia? Greve dos operários em Manchester? As muitas exigências dos Lordes da Câmara Alta? A tudo urgia dar uma resposta mas bastava-lhe ouvir a suave respiração da gata adormecida para que o ânimo de Vitória se suavizasse. O mundo parecia-lhe então um lugar melhor.

Preocupada com o futuro do animal, legou-o, como o próprio Império, ao seu herdeiro, o futuro Rei Eduardo VII, que o tratou como a uma jóia da Coroa. White Heather morreu idosa e mimada no Palácio de Buckingham na primeira década do século XX.

Movida por este amor, Vitória foi também a primeira chefe de Estado ocidental a indignar-se com a "injusta perseguição de que estes animais são tantas vezes alvo", insistindo que fosse acrescentado um gato aos animais esculpidos na medalha de mérito atribuída pela Sociedade Real contra a Crueldade sobre Animais. Por isso, não teve dúvidas em patrocinar o trabalho do ilustrador Harrison Weir que, para além de ter publicado várias obras sobre a vida animal (incluindo Our Cats and All About Them) organizou em 1871, no Palácio de Cristal, em Londres, o primeiro concurso de beleza para gatos alguma vez realizado no Reino Unido. Contava, para isso, com o apoio expresso de Sua Majestade, a Rainha, que não deixou de estar presente.

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