Warren desiste. Agora é Biden contra Sanders. E ela não diz qual deles apoia

A senadora do Massachusetts sai da corrida democrata depois dos maus resultados na Super Terça-Feira, não tendo ganho sequer as primárias no seu próprio estado. Ainda não anunciou quem vai apoiar.

Primeiro foi Pete Buttigieg e Amy Klobuchar ainda antes da Super Terça-Feira. Depois foi Michael Bloomberg a desistir da corrida à nomeação democrata para as presidenciais de 3 de novembro, depois dos maus resultados nos 14 estados que foram a votos no dia 3 e de mais de 500 milhões de dólares gastos. E a debandada não ficaria completa sem Elizabeth Warren suspender também a campanha, como anunciou o The New York Times.

Apesar de ​​​​​​​ter perdido fôlego na Super Terça-Feira, Warren foi a grande responsável pela saída de Bloomberg da corrida, não tendo poupado o milionário aos ataques durante os dois debates em que ambos participaram, criticando a forma como tratou as mulheres no passado.

"Anunciei nesta manhã que suspendo a minha campanha", disse Warren aos jornalistas reunidos à porta da sua casa em Cambridge, no Massachusetts. A senadora disse ter "um profundo sentimento de gratidão em relação a cada uma das pessoas que entraram nesta luta, cada pessoa que apoiou uma ideia nova, cada pessoa que mudou um pouco a sua noção do que devia ser o presidente dos EUA".

Apesar de já não ser candidata, Warren garante que vai continuar a lutar pelos americanos trabalhadores em todo o país.

Quanto à questão de saber a quem vai dar o seu apoio na corrida democrata, a senadora explicou precisar de "algum espaço" para pensar sobre o assunto.

Com a saída da senadora do Massachusetts, que não venceu sequer no seu estado, tendo visto o Massachusetts preferir Biden, a corrida democrata fica reduzida a um duelo entre o ex-vice-presidente e o senador do Vermont. Ou quase. Tudo porque Tulsi Gabbard, a congressista do Havai, de 38 anos, continua na corrida, apesar de ter apenas conseguido um delegado - na Samoa Americana.

Depois de Pete Buttigieg e de Amy Klobuchar, a decisão de Bloomberg de abandonar a corrida depois de ir pela primeira vez a votos nas primárias democratas - e de ter gasto mais de 500 milhões na campanha - talvez tenha sido a maior surpresa. O ex-mayor de Nova Iorque era tudo menos uma figura consensual - criticado pela forma como lidou com as mulheres, com os negros (a política de stop and frisk que defendeu na Polícia de Nova Iorque, esse parar e revistar que muitos acusam de visar sobretudo jovens negros, e por querer "comprar" a eleição - mas poucos esperariam que desistisse logo depois das primeiras primárias em que participou. Menos talvez ainda que declarasse o seu apoio a Biden, juntando a sua voz à de Buttigieg e de Klobuchar, numa frente moderada unida contra o socialista Sanders.

Autodenominado socialista democrático, o senador do Vermont, de 78 anos, tem estado na mira dos críticos pelo seu apoio, por exemplo, ao regime cubano.

Apesar de muitos americanos associarem socialismo a comunismo, o próprio Sanders, em 2015, explicava que o socialismo "significa que, quando olhamos para os países do mundo que têm registos positivos na implementação de programas para a classe média e famílias trabalhadoras, automaticamente olhamos para países como Dinamarca, Finlândia, Noruega, Suécia e outros Estados que têm governos trabalhistas e sociais-democratas. E o que descobrimos é que nestes países a segurança social é um direito para todos, a educação superior é virtualmente gratuita, as pessoas reformam-se com boas pensões, os salários são mais altos, a distribuição da riqueza é mais justa e o seu sistema de educação é mais forte do que o nosso".

Uma explicação que não impediu os rivais de lhe porem a etiqueta de comunista - desde Bloomberg ao próprio Trump. E, caso seja ele o nomeado democrata, alguns setores mais moderados do partido democrata temem que os republicanos usem contra ele a sua passada defesa de regimes repressivos na Nicarágua, Cuba ou União Soviética.

Se obtiver a nomeação, Sanders será o candidato mais à esquerda e antissistema a apresentar-se a umas presidenciais desde George McGovern, em 1972. E muitos ainda terão na memória a vitória esmagadora de Richard Nixon nesse ano, com o republicano a conquistar 49 dos 50 estados americanos.

O aparelho está com Biden

O receio de que o Partido Democrata seja prejudicado nas presidenciais de novembro se apresentar um candidato com propostas tão radicais como as de Sanders, que promete perdoar toda a dívida dos estudantes - uns impressionantes 1,6 biliões de dólares - ou criar um sistema nacional de saúde para todos os americanos, levou os candidatos às primárias a desistir a favor de Biden.

Mas se o ex-vice-presidente conseguiu uma vitória impressionante na Super Terça-Feira, vencendo oito dos 14 estados em jogo, o sistema das primárias democratas torna mais difícil determinar o vencedor do que o dos republicanos. No caso destes, o candidato que vence um estado leva todos os delegados que esse estado vale. No caso dos democratas, os delegados são distribuídos proporcionalmente pelos candidatos de acordo com a percentagem de votos que obtiveram.

Por exemplo, no Texas, Biden venceu e levou 42 delegados, Sanders, que foi segundo, obteve 38. Isto explica que neste momento o ex-vice-presidente tenha 433 delegados, enquanto Sanders tem 388.

O que acontece se nenhum obtiver os 1991 delegados necessários para garantir a nomeação antes da convenção de julho em que o partido escolhe o candidato em Milwaukee? Aí as coisas podem tornar-se ainda mais complicadas para Sanders. Tudo por causa dos superdelegados. Estes representantes do partido, congressistas, senadores, governadores, 775 ao todo, só votarão na segunda ronda se nenhum candidato obtiver uma maioria na primeira - isto depois de uma mudança das regras em 2018. Sendo membros do aparelho do partido, é de esperar que a sua lealdade vá para Biden, como em 2016 foi para Hillary Clinton, levando Sanders a pedir a tal mudança das regras.

A resistente Tulsi

Se olharmos atentamente para os resultados das primárias democratas veremos que a corrida ainda não está reduzida a um duelo entre Biden e Sanders. É que, mesmo depois das últimas desistências, há uma candidata que resiste: Tulsi Gabbard.

Aos 38 anos, a congressista do Havai pode só ter conseguido um delegado até agora, mas está decidida a contrariar aqueles que ainda mal tinha entrado na corrida já diziam que a sua campanha estava sem rumo.

Ex-militar que serviu no Iraque e no Koweit, Gabbard tornou-se em 2012 a primeira americana da Samoa e a primeira hindu eleita para o Congresso. Exemplo daquela que chegou a ser a diversidade das candidaturas a 2020, Tulsi, cujo nome significa "basílico sagrado" em sânscrito, é uma feroz populista em termos económicos e não intervencionista em termos de política externa, que gerou críticas ao defender que o presidente Bashar al-Assad não devia ser tirado do poder pela força na Síria. Os dois encontraram-se em janeiro de 2017 durante uma visita de Gabbard à Síria e ao Líbano.

Os media têm-se questionado porque é que uma candidata que não se qualifica sequer para um debate desde novembro continua na corrida. E especula-se que a congressista estará a posicionar-se para ser contratada como comentadora política pela cadeia de televisão Fox News. Talvez. A verdade é que Gabbard continua na corrida.

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