"Vitória de Trump é o regresso do cidadão que se sentia excluído"

Entrevista a Carlos Jalali, Professor de Ciência Política da Universidade de Aveiro, em que se analisa as razões da vitória do candidato republicano e do seu partido, e possíveis contornos da sua presidência.

Donald Trump presidente vai ser diferente de Donald Trump candidato?
Vai ser provavelmente diferente. Não sabemos. Recorde-se que chega a presidente sem experiência política ou militar, por isso, não temos modelo de comparação entre o que ele teria feito no passado nestes campos e o que vai fazer. Mas, provavelmente sim. Os primeiros sinais foram bastante conciliadores e consistentes com o que os seus apoiantes disseram ao longo da campanha: que ele iria ser diferente. Mas ainda é uma incógnita. Trump sempre se mostrou imprevisível.

Há promessas feitas que, pelos constrangimentos da realidade, da diplomacia, das repercussões económicas, não irá cumprir?

Duas perspetivas: há os constrangimentos do sistema político e do contexto global - o presidente dos EUA é o homem mais poderoso no mundo, mas não é omnipotente. O próprio sistema americano, baseado no princípio dos freios e contrapesos, delimita os seus poderes. Os apoiantes disseram que as suas palavras durante a campanha não eram para ser tomadas literalmente. Eram para sinalizar que essas questões...

A construção do muro na fronteira com o México, a interdição de entrada nos EUA de refugiados, muçulmanos...

Sim. As suas palavras eram para mostrar que essas eram questões que ele ia levar a sério. Os apoiantes costumavam dizer que não levavam as suas palavras à letra mas levavam-no a sério enquanto os opositores tomavam-no à letra mas não o levavam a sério. Mas Trump vai ter de mostrar que é capaz de fazer acordos, de chegar a entendimentos.

Há um sentimento de incredulidade perante a eleição de Trump, em certos meios nos EUA e na Europa. Como se pode interpretar a sua vitória?

Há aqui dois aspectos distintos. O primeiro é que as sondagens têm sido criticadas, mas a verdade é que Hillary Clinton ganhou o voto eleitoral. As sondagens davam-na em certos estados com uma pequena vantagem, que podia desaparecer. E foi o que sucedeu. Agora, por que é que Trump ganha e o que isso representa? Primeira nota: as sondagens à boca das urnas mostraram que 60% dos eleitores não gostavam da personalidade de Trump, mas ainda assim quase 50% votou nele, o que significa que muitos que tinham essa perceção negativa, nem por isso deixaram de dar-lhe o seu voto. Segunda nota: Trump apelou a uma faixa da sociedade dos EUA que se sente excluída, económica, cultural e politicamente. É preciso lembrar que o rendimento mediano nos EUA é hoje inferior ao de há 15 anos. A antiga classe operária branca e as pessoas das zonas rurais sentem-se deixadas para trás, sentem que há uma elite de altos rendimentos, a viver nas cidades costeiras... Havia uma ideia nos EUA, e não só, que a minha vida seria melhor do que a dos meus pais e a dos meus filhos melhor do que a minha. Isso agora acabou. Trump soube usar isso muito bem quando disse que aqueles que não têm voz, agora vão ter voz. Há um sentimento de exclusão cultural com toda uma série de pessoas a pensar que não tem nada a ver com aquelas que ditam as modas, aquelas que aparecem nas séries, nos filmes, nas publicações, na música. Hillary, ao aparecer ao lado dessas pessoas, veio ainda reforçar a imagem que o mundo dela não é o mundo dos que se sentem excluídos, uma realidade que se estende ao campo político. Fica a ideia de que há uma elite ligada ao dinheiro e que atua na política... Por isso, Trump nos últimos tempos da campanha insistiu na ideia de que "vamos esvaziar o pântano" e das ligações de Hillary a Wall Street. Note-se que as famílias Bush e Clinton dominaram a vida política nos EUA desde 1988 [até 2009] e a experiência que ela apresentava como uma vantagem, a experiência política, acabou por se voltar contra ela. Uma última nota: o fenómeno que deu a vitória a Trump não é exclusivo dos EUA. Veja-se o voto no brexit, a ascensão da Frente Nacional em França, o Movimento 5 Estrelas em Itália, a revolução no sistema partidário espanhol. A vitória de Trump é o regresso do cidadão que se sentia excluído.

O que se pode antecipar da equipa governativa de Trump?

Irá constituir uma equipa moderada e até procurar chegar aos democratas, isto segundo a narrativa dos apoiantes. Mas há aqui uma barreira que é a da imagem muito negativa que Trump tem entre os democratas. Qualquer democrata que se associe a ele verá a sua imagem muito danificada. O que pode impedir a estratégia de Trump. Agora é que vamos ver se é, como ele diz, um businessman genial e se vai conseguir fazer os acordos necessários. Há outro aspecto importante, o presidente dos EUA não é só responsável pela escolha da equipa de governo, ele nomeia muitas pessoas na administração pública e vamos ver que tipo de pessoas vão ser escolhidas. As redes de contactos de Trump são distintas das de Hillary, ele está muito ligado à chamada direita alternativa.

Além da vitória de Trump, assistiu-se a uma clara vitória dos republicanos, que mantêm a maioria na Câmara dos Representantes e Senado, isto apesar das tensões e divisões até por causa de Trump.

Mark Twain tem aquela frase sobre o anúncio da sua morte, quando diz que foi um exagero. Também o anúncio da morte dos republicanos foi exagerado. O partido ganha a presidência e as duas Câmaras do Congresso. E, desde logo, os sinais de desunião tornaram-se mais ténues, a mostrarem que o poder é aquilo que melhor une os partidos políticos. Durante a campanha, os candidatos à Câmara e ao Senado distanciaram-se de Trump, que era visto como potencialmente tóxico. Os resultados de ontem mostraram o contrário. Como ele vai usar esse argumento nas duas Câmaras e consolidar o seu poder no interior do partido é uma questão a seguir.

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