"Vimos morrer um adolescente diante os nossos olhos"

Crianças e adolescentes de Madaya, cidade cercada desde julho pelas forças de Damasco, apresentam sinais de grave subnutrição.

A representante da UNICEF na Síria divulgou hoje um comunicado em que revela ter testemunhado a morte de um jovem de 16 anos numa clínica da cidade de Madaya, cercada desde julho pelas forças do regime de Bashar al-Assad e onde começou a chegar na segunda-feira, pela primeira vez desde outubro, ajuda humanitária.

Num texto enviado às agências, Hanaa Singer, que entrou quinta-feira em Madaya com o segundo comboio de ajuda, refere ter visitado uma clínica onde "vimos morrer um adolescente diante os nossos olhos". O jovem, de nome Ali, apresentava sinais de profunda subnutrição. Assim como Ali, muitas outras pessoas evidenciam os mesmos sinais, afirmando um elemento da equipa da UNICEF, que esteve na cidade durante cerca de sete horas, que todos regressaram "absolutamente chocados" com o que testemunharam. Juliette Touma, que trabalha em Amã com refugiados sírios, disse à AP serem comuns "situações horríveis" de subnutrição, afetando particularmente crianças, mulheres e idosos.

Um porta-voz da UNICEF, falando em Genebra, indicou que a equipa presente ontem em Madaya observou 25 crianças com menos de cinco anos, das quais 22 apresentavam sinais de subnutrição moderada a profunda. Seis em dez outros jovens, estes com idades entre seis e 18 anos, encontravam-se em situação de subnutrição grave. Um outro adolescente, de 17 anos, estaria em "perigo de vida".

A situação em Madaya é o mais recente desenvolvimento trágico da longa guerra civil na Síria, que causou mais de 250 mil mortos desde março de 2011.

Uma pessoa da ONG SOS Children's Villages, Abeer Pamuk, descreveu um quadro soturno e angustiante da situação que se vive na cidade. "Estão todos pálidos, macilentos, de pele e osso. Mal podem falar ou andar. Os seus dentes estão negros, as gengivas sangram (...). Basicamente, têm sobrevivido comendo vegetação. Disserem-nos que algumas famílias têm comido gatos". E as mães são forçadas a "darem comprimidos tranquilizantes às crianças, que não param de chorar com fome. E não há nada para as alimentar", explicou Pamuk num texto distribuído às agências.

Além da falta de alimentos, é igualmente crítica a situação nos locais que prestam cuidados de saúde aos habitantes de Madaya. Na nota da UNICEF é referido que no hospital visitado pelos elementos desta organização das Nações Unidas trabalham apenas dois médicos e dois enfermeiros, e que são inexistentes as condições e os meios de tratamento.

Atualmente com uma população estimada em 42 mil pessoas, Madaya é controlada por elementos do Exército Sírio Livre e do Estado Islâmico, com as forças de Damasco a controlarem os acessos.

Segundo números conhecidos na passada semana, morreram 32 pessoas à fome em Madaya no mês de dezembro.

Além de Madaya e dos seus 42 mil habitantes, segundo as Nações Unidas, estão cercadas mais 450 mil pessoas em 15 outras localidades, algumas sob controlo de forças de Damasco, outras controladas pelos islamitas e diferentes grupos da oposição ao regime de Bashar al-Assad.

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