Vice-ministro queria diálogo com mineiros mas acabou espancado até à morte

Era vice-ministro do Interior e da Polícia há apenas cinco meses mas confiava que a proximidade com alguns dos líderes dos mineiros cooperativistas poderia facilitar o diálogo com os manifestantes que há três dias bloqueavam a estrada junto a Panduro, 200 km a sul de La Paz. Mas acabou sequestrado e, segundo disse em lágrimas o ministro da Defesa, Reymi Ferreira, "humilhado, torturado e espancado até à morte". Rodolfo Illanes tinha 58 anos e era muito próximo do presidente Evo Morales, que decretou três dias de luto pela morte do "herói nacional dos recursos naturais".

Os cooperativistas trabalham por conta própria, juntando-se em cooperativas e explorando minas já abandonadas pelo Estado ou cuja concessão é propriedade coletiva, muitas vezes sem segurança. Cerca de cem mil pessoas trabalham na chamada "mineração de sobrevivência". Estão nas ruas em protesto contra a nova lei das cooperativas, que o governo aprovou dizendo que por detrás destes grupos se escondem interesses comerciais, abusos dos direitos laborais e violações ambientais. Um dos direitos previstos na nova lei seria o direito sindical, apesar de o governo dizer que tal não se aplicaria ao setor das minas.

Nos últimos dias, os manifestantes cortaram estradas em Cochabamba e Panduro e envolveram-se em confrontos com a polícia. Illanes, advogado e ex-assessor de Morales para os assuntos penais que já tinha passado pela pasta do Emprego, Serviço Público e Cooperativas, resolveu ir ao terreno.

"Ele foi lá para convencer e dialogar", disse Morales, que contou com o apoio dos mineiros para ser eleito em 2006. "Sequestraram-no, torturaram-no e mataram-no. É imperdoável." O ministro terá sido sequestrado pelas 10.30 locais (15.30 em Lisboa) e enviado para uma colina conhecida como La Antena. Entretanto, em La Paz, as autoridades faziam contactos para dialogar com os representantes dos mineiros, de acordo com o filme dos acontecimentos do jornal El Deber.

"Estou bem de saúde, por favor para que se tranquilize a minha família também. Estou sentado, rodeado pelos companheiros para que as pessoas não me façam mal, estou aqui há duas horas." Foram estas as últimas palavras de Illanes à rádio Pio XII, numa comunicação em que apelou ao diálogo, já depois de o veículo em que viajava até Panduro ter sido intercetado por um grupo de mineiros cooperativistas que há três dias bloqueavam a via.

Mas, a meio da tarde, a tensão era elevada no terreno. "Tentaram assassinar-me e isso é algo que não vou aceitar", disse à Rádio Erbol o presidente de uma das cooperativas, Josué Caricari. "Se querem matar-me, matem-me junto com o vice-ministro. Vou até La Antena", acrescentou, depois de ter dito que tinha "dois caixões". Segundo a autópsia, Illanes morreu vítima de derrame cerebral entre as 17.30 e as 18.00, numa altura em que os cooperativistas se envolviam em confrontos com a polícia, alegadamente durante uma operação para libertar o ministro na qual terá morrido a tiro um mineiro.

"Levaram-no até La Antena e torturam-no, bateram-lhe, mataram-no. Pensamos que lhe esmagaram o crânio com uma pedra e depois deixaram-no num barranco", indicou o ministro do Trabalho, Gonzalo Trigoso. O guarda-costas, a quem tiraram a arma, foi atingido também na cabeça, mas escapou com vida porque alegadamente os manifestantes pensaram que já estava morto. O corpo de Illanes, que era casado e tinha dois filhos, foi recuperado já de madrugada. Os manifestantes interromperam entretanto os protestos, tendo havido mais de cem detidos - 11 pela morte do ministro.

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