Viagem ao incrível mundo dos "lives" de Bolsonaro

Desde 7 de março, todas as quintas-feiras às 19 horas, o presidente do Brasil fala ao país, ladeado por colaboradores, em gravações de baixa qualidade sobre temas como os radares nas estradas, a pesca da tilápia ou a banana do Equador.

"Hoje é o Dia Internacional da síndrome de Trown", diz Jair Bolsonaro enquanto lê, solene, um documento na sua frente. "Down, Down", segreda a seu lado o General Augusto Heleno ministro da segurança institucional. O episódio é apenas mais um dos muitos momentos dos 25 lives (diretos) das quintas-feiras às 19 horas do presidente do Brasil que ganharam estatuto de meme de internet.

Bolsonaro já fez os seus lives no Japão, durante o G20, ou ao lado de produtores rurais, em visita de trabalho, mas, por hábito, as gravações são realizadas em salas, no Palácio do Planalto ou na sua casa. A captação de imagem, amadora e sem qualidade, lembra, como notam humoristas, as aparições clandestinas de Osama Bin Laden, mas são propositadas, para dar imagem de austeridade, depois de os seus antecessores terem gasto milhões com "marqueteiros" profissionais.

"Não se faz televisão na internet, a televisão tem uma outra linguagem estética, quando se faz um live muito produzido, com duas, três câmaras em ambiente simulando estúdio, isso por si só atrai menos audiência da internet", disse ao portal UOL o consultor digital Fred Perillo.

Os diretos começaram a 7 de março mas foram anunciados pelo próprio Bolsonaro em dezembro, um mês antes de tomar posse, como forma de "prestar contas" dos atos do governo e "porque muitas vezes os media exageram ou deturpam alguma coisa".

Para Emmanuel Dias, especialista em marketing político, Bolsonaro contorna a imprensa e, com isso, gera um sentimento de cumplicidade entre seus apoiantes na oposição aos veículos tradicionais. "O live repercute esse sentimento: 'Olha, estou passando isso para você porque a Folha de São Paulo não está te dizendo, porque a TV Globo não está te dizendo, e nós sabemos que a verdade é o que eu estou te passando'", resumiu.

Normalmente, Bolsonaro aparece ladeado de dois convidados, mas já chegaram a ser três, quatro e cinco. Lê ou fala de improviso. Coloca na mesa livros escolhidos a dedo, como a Bíblia, obras de Olavo de Carvalho, o filósofo amador que lhe serve de guia intelectual, ou biografias de estadistas, como Churchill. Usa fato e gravata mas também já apareceu com a camisa da seleção brasileira. Por trás, a bandeira do Brasil, que foi protagonista de outro meme, ou mapas do país. Intercala momentos em que fala com tom grave com outros em que faz piadas com os companheiros de mesa.

O jornal O Estado de S. Paulo compilou os lives e descobriu quais os companheiros de mesa mais frequentes. Os seus super-ministros Paulo Guedes, da economia, e Sergio Moro, da justiça, por exemplo, só apareceram uma vez cada. O citado general Heleno, pelo contrário, já foi a pelo menos sete até porque, como se viu no caso da síndrome de Trown, é útil para, qual ponto do teatro, socorrer o chefe de Estado: uma vez, ao fazer uma conta matemática simples, estava Bolsonaro atrapalhado com a conversão do preço de uma colher de nióbio, um material químico pelo qual é obcecado, e, noutra, ao corrigir a data da canonização de Irmã Dulce, santa brasileira, que o presidente errara.

A seguir a Heleno, estranhamente, o membro do governo mais solicitado é Jorge Seif Junior, secretário nacional de pescas, a quem o presidente chama de "Neptuno". Estranhamente, ou talvez não: afinal, o tema a que Bolsonaro vem dando mais atenção, ao longo de cerca de 11 horas de lives, não foi o flagelo do desemprego (está num discreto 44.º lugar da lista), mas a pesca (quase uma hora).

Só de criação de tilápia, peixe de água doce muito comum no Brasil, Bolsonaro conversou com "Neptuno" por 15 minutos e 47 segundos ao longo das transmissões, contabilizou o Estadão, superando temas estratégicos para qualquer governo, como a Saúde (meros 7 minutos e 33 segundos).

Os assuntos mais falados a seguir à pesca são a internet, pilar da sua eleição, as armas, o seu principal cavalo de batalha, e as cartas de condução, no qual gastou meia hora de transmissões. O presidente do Brasil é um opositor feroz da obrigatoriedade de uso de cadeiras de bebés nos automóveis e dos radares que controlam excesso de velocidade. "Porque ninguém é otário de entrar numa ribanceira a 80, 90 quilómetros por hora", justificou. O presidente, a primeira-dama Michelle e os seus três filhos políticos, Flávio, Carlos e Eduardo, estão todos no limiar da suspensão das suas cartas de condução por multas.

Entretanto, a banana do Equador é, ao lado dos governos do PT, um dos maiores alvos. Indiferente à presença do seu ministro da economia, um tubarão dos mercados adepto do estado mínimo, anunciou medida de proteção aos produtores de banana do Vale da Ribeira, curiosamente, ou talvez não, a região do estado de São Paulo onde nasceu. O abacate argentino também já esteve debaixo da mira presidencial.

Para se ter uma ideia das prioridades do capitão do exército reformado, no dia da aprovação do relatório da reforma da previdência, considerado o maior desígnio do governo, Bolsonaro não se referiu ao assunto ao longo de um vídeo de 37 minutos. Dedicou-se, como de costume, à pesca e a questões rodoviárias.

Além do caso da síndrome de "trown", outro momento viral na internet foi o da queda da bandeira do Brasil enquanto Bolsonaro falava. Na ocasião, estava entre dois dos seus convidados mais comuns: uma anónima tradutora de libras (linguagem brasileira de surdos) e o deputado Hélio Lopes, também chamado de Hélio Bolsonaro, por estar sempre ao lado do presidente, e de Hélio Negão, por ser negro e alto. Donald Trump, na cimeira do G20, quis saber o que queria dizer "negão", ao que Bolsonaro, depois de explicar com auxílio de tradutor, sublinhou que "o Hélio é muito melhor do que o Obama", gerando gargalhadas do visado e um sorriso constrangido do presidente dos EUA.

O aniversário de Bolsonaro foi outra ocasião em lives que rendeu memes: o aniversariante quis lembrar que fazia anos no mesmo dia do piloto de fórmula 1 Ayrton Senna, falecido, e do futebolista Ronaldinho Gaúcho, de ótima saúde, mas acabou por confundir-se, evocando a memória do segundo.

Como resume o consultor Fred Perillo, é difícil saber onde acaba o improviso e começa o método. "Particularmente, acredito que seja tudo um improviso calculado, ele quer dar esse sinal de que 'sou mais um', tanto que, sempre que pode, ele quebra a liturgia do cargo e usa roupas como camisa de clube de futebol ou come em restaurantes populares".

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