Veneza ficou submersa. Estará a afundar-se?

A cidade procura reerguer-se depois das inundações históricas que marcaram a semana. Além das cheias, que ameaçam o património, os moradores enfrentam os constrangimentos provocados pelo turismo.

Duas tempestades atingiram Itália esta semana, matando pelo menos 11 pessoas e inundando a praça de São Marcos, em Veneza. Ventos fortes, chuvas torrenciais e marés vivas fizeram com que a água atingisse o nível mais alto dos últimos dez anos: 1,5 metros. Na terça-feira à noite, 75% da cidade estava inundada. "Veneza está a afundar-se", diz o The Times.

"O medo e o temor nas vozes dos venezianos com quem conversei por estes dias eram palpáveis", contou ao jornal britânico Russell Norman, dono de um restaurante. "Eu sinto pelos moradores. Os seus negócios estão sob ameaça - e debaixo de água. A água tem um efeito muito prejudicial na estrutura dos edifícios. Eles têm de trabalhar arduamente para tirá-la o mais depressa que conseguirem", afirmou.

Esta foi a sexta vez na história recente da cidade em que a "acqua alta" ultrapassou os 1,5 metros: atingiu 1,51 em 1951, 1,66 em 1979, 1,59 em 1986, 1,56 em 2008 e um recorde de 1,94 em novembro de 1966. Nesse ano, recorda a mesma publicação, os danos foram catastróficos: cinco mil pessoas desalojadas e 75% das empresas danificadas ou destruídas. Resultado de uma maré excecionalmente alta, combinada com vento e chuva fortes.

Durante esta semana, contou Norman, houve momentos em que os especialistas achavam que a tragédia de 1966 podia repetir-se. Desta vez, a maré também estava alta, o que coincidiu com "ventos fortes e chuvas torrenciais". Viveram-se, segundo a mesma fonte, níveis muito altos de "crise e stresse".

De acordo com a informação divulgada pelas autoridades, a catedral de São Marcos ficou submersa, e "envelheceu 20 anos num único dia" - o que talvez seja uma visão "otimista". Algumas zonas do edifício do século XI estiveram, segundo o The Times, 16 horas debaixo de água. E a destruição estendeu-se até às ilhas.

"As inundações são uma repetição sinistra de 1966", afirmou Jonathan Keates, presidente do fundo Veneza em Perigo, criado após as desastrosas inundações. Para proteger o património artístico, recorda, foi criado um fundo na Grã-Bretanha com o objetivo de ajudar a conservar a cidade, os seus edifícios e obras de arte.

"Veneza está a afundar-se sob o peso de muito mais do que a água das cheias", escreve o The Times. A cidade é, segundo o Europa Nostra, "o local mais ameaçado da Europa", e poderá perder o estatuto de Património da Humanidade da UNESCO se nada for feito.

Os locais confrontam-se também com a ameaça do turismo. No principal porto, os cruzeiros depositam dezenas de milhares de turistas, que passeiam nas ruas já lotadas. "Não contribuem para a economia e levam mais do que dão", critica Norman.

Nos últimos anos, Veneza assistiu a um êxodo em massa de moradores. Das 120 mil pessoas que habitavam a cidade há três décadas, restam apenas 55 mil. Segundo o jornal britânico, os ativistas estimam que a cidade deixe de se conseguir sustentar se o número cair para 50 mil, pois não haverá pessoas suficientes para tomar conta dos negócios.

Os problemas terão aumentado com o Airbnb, que fez disparar os preços dos imóveis, tornando a cidade inacessível para os locais que pensavam mudar de casa. Quando os imóveis são colocados à venda, são geralmente comprados por empresas para alojamento local.

O que pode ser feito?

Há um projeto para proteger a cidade das inundações e podem ser colocadas restrições ao número de cruzeiros. Mas o projeto Mose, que deveria proteger Veneza com portões nas três entradas da lagoa, está envolto em escândalos de corrupção e falta de fundos. Existem muitas vozes críticas, mas também há quem esteja otimista.

É o caso de Leina Reimann, investigadora na Universidade de Kiel, que diz que Mose "é um bom exemplo do que se pode fazer para proteger o património mundial". Destacando que o projeto deverá estar concluído em 2021, Leina considera que eventos como o que ocorreram esta semana seriam muito menos frequentes.

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