Um otimista japonês e um cético americano: a cimeira Trump-Kim vista da sala de imprensa

Presidente americano e líder norte-coreano estiveram reunidos em Singapura. Entre as centenas de jornalistas que seguiram o encontro, ouviram palmas fracas após a conferência de imprensa do presidente americano.

"Uma longa viagem começa com um primeiro passo", assim versa o ditado chinês que se pode aplicar ao que se passou na cimeira histórica em que estiveram frente a frente o presidente dos Estados Unidos e o líder da Coreia do Norte. Restam poucas dúvidas sobre o significado histórico deste encontro em que Donald Trump se comprometeu a garantir a segurança e Kim Jong-un aceitou a desnuclearização do seu país. Mas persistem questões sobre os compromissos assumidos.

Há todo um historial de desconfiança profunda dos vizinhos face ao que Pyongyang promete. O Japão reagiu de forma positiva à cimeira, mas o ministro dos Negócios Estrangeiros Itsunori Ondera alertou que a comunidade internacional não deve acreditar nas promessas da Coreia do Norte, enquanto não tomar medidas concretas. Já Shinji Yamasaki, jornalista do diário japonês Akahata, tem um olhar bem mais otimista. "Acredito que este é o momento de viragem para o futuro da nossa região do nordeste da Ásia", afirma, com brilho de esperança nos olhos. E serão as palavras de Kim Jong-un e Donald Trump confiáveis? "Não os conheço, por isso não sei, mas chegaram aqui e espero que desta vez seja diferente."

Após esta cimeira, outros encontros se avizinham, como por exemplo um que terá um significado especial para Yamasaki, entre o primeiro-ministro Shinzo Abe e Kim Jong-un. "Os nossos dois países têm muito que discutir, por isso é importante que essa cimeira se realize, mas, tal como neste caso, terá de ser, nesta altura, em terreno neutro", avança, sugerindo Singapura novamente como palco.

O otimismo moderado de Yamasaki refletiu-se ao juntar-se a um punhado de jornalistas, entre as centenas que se encontravam no centro de imprensa, que bateram palmas quando Trump terminou a conferência de imprensa que durou mais de uma hora.

Requisitos mínimos

Bem mais cético é Michael Kovrig, analista norte-americano, com base em Hong Kong, que se dedica há anos a acompanhar as questões de segurança na zona Ásia-Pacífico para o International Crisis Group. "É certo que o acordo é um passo em frente, deixando para trás a guerra e rumo a negociações pacíficas, mas quando olhamos para os detalhes percebemos que as posições dos dois lados ainda estão muito distantes uma da outra." Para já "há uma satisfação de requisitos mínimos" para um compromisso em torno da desnuclearização em troca de garantias de segurança para Pyongyang. Todavia, Kovrig sublinha que teria sido mais significativo se datas específicas para as negociações tivessem sido já anunciadas.

O sucesso desta cimeira, argumenta, vai depender de passos concretos. Kovrig defende que o desmantelamento do programa nuclear deve ser acompanhado por compromissos em torno do fim de testes de mísseis balísticos de curto e médio alcance. Um segundo passo passará pela adesão da Coreia do Norte ao Tratado de Proibição Total de Testes Nucleares. Há depois a dimensão mais puramente diplomática. "Politicamente, os EUA têm de trabalhar num acordo de paz que ponha um ponto final formal à guerra da Coreia e estabelecer laços diplomáticos com Pyongyang."

Desenvolvimento económico

Há ainda uma outra dimensão que poderá fazer caminho: o desenvolvimento económico da Coreia do Norte. Trump referiu isso mesmo na conferência de imprensa, encorajando Kim a abrir as portas da economia ao exterior. "À medida que a Coreia do Norte tomar passos concretos, o Conselho de Segurança deveria começar a aliviar as sanções económicas, nomeadamente no que diz respeito a setores-chave da economia como a pesca e os têxteis", disse. Neste processo, a China e a Coreia do Sul entrariam em cena prestando auxílio, empréstimos e fazendo investimentos.

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