UE reforça defesa em resposta a Trump e antes da visita de Obama

Depois das ameaças do presidente eleito dos EUA, os 28 acordaram plano que admite ativar forças de resposta rápida europeias.

Como candidato, Donald Trump não escondeu que, se chegasse à Casa Branca, tencionava tornar condicional a ajuda militar dos EUA aos aliados europeus. Agora que o republicano venceu as presidenciais e se prepara para assumir o poder em janeiro, esta ameaça (pouco) velada parece ter empurrado a União Europeia a reforçar a sua estratégia de defesa, criando pela primeira vez as condições para enviar forças de resposta rápida para o estrangeiro em caso de conflito envolvendo um dos seus membros.

Em véspera da chegada de Barack Obama à Grécia para a sua ultima visita à Europa como presidente, os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE estiveram ontem reunidos com os homólogos da Defesa para traçar um plano de defesa comum entre os 28 (ou 27, quando se concretizar a saída do Reino Unido). "A Europa tem de ser capaz de agir para a sua própria segurança", afirmou à Reuters o ministro da Defesa francês, Jean-Yves Le Drian. A França, em parceria com a Alemanha e apoiadas pela chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, tem liderado o esforço para uma política de defesa mais integrada. Uma ideia a que Londres sempre se opôs. Mas com o brexit no horizonte, abriu-se uma janela de oportunidade para o projeto avançar.

Ontem foi Mogherini quem apresentou o plano de 16 páginas no qual os Estados-membros da UE definem tarefas e objetivos, muitos deles não passando do nível das intenções se não houver mais investimento por parte dos vários países. Mas depois dos ataques de Trump contra os membros da NATO e os seus baixos níveis de despesas militares (só cinco países da UE chegam a gastar os 2% do PIB que a Aliança Atlântica definiu como objetivo), o documento ganha maior relevância. Sobretudo a parte em que Mogherini garantiu terem chegado a acordo para usar os chamados Grupos de Combate da UE, forças de reação rápida compostas por 1500 elementos e com capacidade para intervir no espaço de dez dias após uma decisão de Bruxelas, num raio de 6000 km a partir da capital belga e com autonomia para 30 a 120 dias. Desde 2007 que a UE tem dois Grupos de Combate em estado de prevenção, mas nunca foram usados.

E poderão não ser usados tão cedo. É que apesar da boa vontade ontem demonstrada pelos ministros, o plano ainda terá de ser assinado em dezembro pelos líderes dos Estados-membros, tendo ficado o debate sobre o financiamento - um assunto longe de recolher a unanimidade entre os vários países - adiado para 2017. As propostas para a criação de um quartel general militar europeu também foram deixadas para mais tarde, focando-se os ministros em missões civis.

Apesar deste esforço para americano ver, os valores em cima da mesa estão longe dos 18 mil milhões de dólares que os EUA pretendem investir nos próximos cinco anos em novas tecnologias militares.

Neste momento, a UE tem 17 missões civis e militares a decorrer, algumas fora do continente, em países como a República Democrática do Congo, ou no Mediterrâneo, onde procura travar o fluxo de migrantes vindos da Líbia.

Apesar do plano apresentado ontem por Mogherini, os ministros europeus fizeram questão de garantir que uma força de defesa europeia não será uma concorrente da NATO. E o ministro da Defesa britânico, Michael Fallon, que se opôs ao brexit, defendeu um maior investimento militar , mas afastou a ideia de "um exército europeu.

A união de ontem contrastou com a desunião mostrada na véspera pelos 28, quando tanto os britânicos como os húngaros recusaram participar no jantar de chefes da diplomacia convocado para domingo à noite após a vitória de Trump no dia 8 e a que os média chamaram o "jantar do pânico". Também o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Marc Ayrault, anunciou que não estaria presente por questões de agenda. Já a Polónia fez saber, através do ministro Witold Waszczykowski, que "os americanos escolheram um presidente que não é um anjo, mas também não é uma criança, que precise de tratamento especial".

Sossegar os aliados

Era para ser uma viagem em que Barack Obama devia reforçar o seu legado e despedir-se dos aliados. Mas a vitória de Donald Trump no dia 8 veio mudar tudo. Na sua última visita à Europa como presidente, Obama vê-se agora obrigado a sossegar os líderes europeus sobre as intenções do homem que lhe vai suceder. E que ele foi o primeiro a dizer não ter competência para ocupar a Casa Branca.

O presidente americano chega hoje à Grécia, onde, nos encontros com o presidente Prokopis Pavlopoulos e com o primeiro-ministro Alexis Tsipras, deverá saudar os esforços do povo e das autoridades gregas na receção aos milhares de refugiados que afluíram ao país vindos de África, mas sobretudo da Síria e Iraque.

Mas é no discurso que pronunciará amanhã aos pés da Acrópole, em Atenas, que estarão todas as atenções. Espera-se que Obama aborde os desafios da globalização, a economia e o comércio. Na sua intervenção, o presidente americano deverá dar a sua opinião sobre a razão pela qual tantas pessoas "sentem que as decisões são tomadas para além do seu controlo". Uma referência tanto à vitória de Trump como à decisão dos britânicos de saírem da União Europeia, tomada no referendo de 23 de junho.

Da Grécia, Obama segue na quinta-feira para a Alemanha, para a sexta visita àquele país desde que chegou ao poder em 2009. Depois de um encontro a dois com a chanceler Angela Merkel, o presidente americano terá direito a uma espécie de mini-cimeira de despedida em que à líder alemã se juntarão o presidente francês, François Hollande, a primeira-ministra britânica, Theresa May, e os primeiros-ministros italiano e espanhol, Matteo Renzi e Mariano Rajoy.

Com eleições marcadas para o próximo ano tanto em França como na Alemanha e com o governo de Renzi ameaçado pelo resultado do referendo de dia 4 sobre a reforma da Constituição (ver página 31), a Europa assistiu à vitória de Trump sob a ameaça crescente dos seus próprio populismos. Seja Marine Le Pen, a líder da Frente Nacional (extrema-direita), dada como certa na segunda volta das presidenciais francesas, a Alternativa para a Alemanha (que nasceu como partido anti-euro mas se tornou n acionalista e anti-imigração) que continua a crescer na Alemanha ou o Movimento 5 Estrelas, fundado pelo comediante Beppe Grillo e conhecido pelo anti-europeísmo, que em Itália ameaça o Partido Democrático de Renzi.

Segundo o seu conselheiro para a segurança nacional, Ben Rhodes, Obama deverá tentar acalmar os receios, sublinhando que os EUA irão manter "a solidariedade com os nossos aliados mais próximos."

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG