Ucrânia escolhe presidente entre empresário do chocolate e comediante

Petro Poroshenko ou Volodymuyr Zelenskiy? Um deles será o novo presidente da Ucrânia. 35 milhões de ucranianos são chamados este domingo a votar na segunda volta das eleições ucranianas

35 milhões de ucranianos são chamados de novo às urnas este domingo para escolher um novo presidente na segunda volta das presidenciais. A opção é entre Petro Poroshenko e Volodymyr Zelenskiy. O primeiro é empresário, tem 53 anos, é o atual chefe do Estado da Ucrânia e tem-se pautado por uma aproximação à UE e EUA e uma crítica feroz à Rússia. O segundo é comediante, tem 41 anos, é estrela do programa de humor "O Servidor do Povo". Nesse já é presidente da Ucrânia. Se chegar a vencer no domingo, de facto, aquilo que há muito existe na ficção passará então a ser realidade.

Na primeira volta, realizada a 31 de março, Zelenskiy teve 30,2% dos votos expressos e Poroshenko 15,9%. Durante a campanha eleitoral, que mais parece uma comédia, Zelenskiy desafiou Poroshenko para um debate e este aceitou. Antes exigiu que ambos os candidatos realizassem testes de álcool e droga. E o atual presidente acedeu. Fez o teste. Depois faltou ao debate, que deveria ter lugar no passado domingo, no estado Olímpico de Kiev. Poroshenko não se perturbou. Falou sozinho à multidão, da tribuna com dois lugares, mas um deles vazio. Zelenskiy e Poroshenko chegaram depois a acordo na quarta-feira para fazer um último debate, esta sexta-feira à tarde, no estádio que leva 70 mil pessoas.

Num país com um grave conflito armado a leste, com uma parte do território anexado pela Rússia, na Crimeia, com uma situação financeira difícil, pendente do combate à corrupção e do dinheiro do FMI, Poroshenko surge como o líder experimentado. A sua experiência é o seu trunfo contra Zelenskiy.

O seu slogan de campanha é "Exército, língua e fé", num apelo ao orgulho nacional, à defesa da integridade territorial da Ucrânia, face às investidas dos pró-Rússia. Durante o seu mandato, Poroshenko reduziu a influência russa nos media do país, censurando os filmes russos, bem como os livros. Além disso, criou a Igreja Ortodoxa da Ucrânia, que já não depende do Patriarcado de Moscovo e, por isso, ganhou bastante crédito junto do eleitorado.

Apoiante da Revolução Laranja de 2004, que visou uma maior aproximação da Ucrânia ao Ocidente, Poroshenko fez fortuna à conta da sua empresa de confeitaria e de fabrico de chocolate Roshen, bem como de um canal de televisão, o 5 Kanal. A sua fortuna pessoal está avaliada em cerca de mil milhões de dólares, ou seja, 885 milhões de euros. Nascido na ex-União Soviética, o atual chefe do Estado foi criado em Bendery, uma cidade do sul que agora pertence à Moldávia.

Formado em Economia, antes de enveredar pelo mundo dos negócios, Poroshenko é enaltecido, por uns, pela resistência contra os rebeldes pró-russos no leste da Ucrânia e criticado, por outros, pela lentidão no combate à corrupção. Sobre os truques de Zelenskiy nesta campanha eleitoral Poroshenko avisou o rival: "Isto não é um show. Não há espaço para piadas aqui. Ser presidente e comandante supremo das forças armadas não é uma brincadeira".

Yulia Timochenko, candidata que foi eliminada na primeira volta das presidenciais, diz que o atual presidente é corrupto. "Debaixo de água há uma pirâmide de corrupção construída nos últimos cinco anos. Se ganharmos, este ambiente criminoso e de corrupção será levado à justiça", declarou a ex-primeira-ministra, antes da primeira volta.

Zelenskiy, por seu lado, é uma estrela do Canal 1+1, propriedade do oligarca Ihor Kolomoisky, que é um opositor declarado do atual chefe do Estado depois de este ter nacionalizado o banco que detinha. Esta quinta-feira um tribunal de Kiev decidiu que a nacionalização do PrivatBank, em 2016, violou a lei. Apesar das insinuações e acusações diretas, Zelenskiy nega ser uma marioneta de Kolomoisky, fazendo fortuna com a produtora Studio Kvartal 95.

Natural de Kryvyi Rih, uma cidade do sul ligada à indústria automóvel, Zelenskiy é formado em Direito. Apesar disso, preferiu enveredar pela carreira de comediante. Durante a campanha, tem preferido as redes sociais, aos comícios convencionais. No Instagram, Zelenskiy tem 3,7 milhões de seguidores, enquanto que Poroshenko tem apenas 267 mil. O rival do atual chefe do Estado tem mais seguidores naquela rede social do que os líderes de França, Alemanha, Itália e Reino Unido juntos.

Acusado de inexperiente, Zelenskiy defende-se alegando que sempre foi uma pessoa politicamente ativa, pois esteve por exemplo nos protestos da Euromaidan, em 2014, contra o presidente pró-russo Viktor Ianukovitch. Quando eclodiu o conflito com os separatistas pró-russos, no leste da Ucrânia, o comediante ajudou a criar um batalhão de voluntários para irem combater os rebeldes pró-regime de Vladimir Putin. Zelenskiy disse, sobre a Rússia e o seu presidente, que está disposto a resolver o conflito através de conversações diretas com Moscovo. Sobre a NATO, defende um referendo, para sair se a Ucrânia deve ou não ser Estado membro da Aliança Atlântica.

No que toca ao combate à corrupção e às políticas económicas, diz a Reuters, Zelenskiy é partidário de continuar a cumprir o programa do FMI, durante o tempo em que for necessário, acabar com a imunidade do presidente, dos deputados e dos juízes, mudar a lei para passar ser a possível submeter o presidente a um processo de impeachment, conceder uma amnistia fiscal, permitindo que as pessoas que antes não declararam bens o possam fazer se pagarem uma taxa de 5%.

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