Uber funciona com vasilhas de combustível e salada vira enlatado

Em São Paulo população adapta-se às restrições impostas pela falta de combustíveis provocada pela greve dos camionistas

A banana vai virar tapioca. A salada fresca, milho enlatado. Há quem vá a pé ou de metro. Quem ainda estuda vai ficar em casa. Quem trabalha, e pode, também.

Sem combustível nos postos, com menos autocarros em circulação e menos produtos a chegar às prateleiras dos mercados, a população vira-se como pode para prosseguir a sua vida sem transtornos durante a greve dos camionistas.

Geremias Barbosa, de 33 anos, deixou uma loja de suplementos alimentares para atletas para trabalhar como motorista da Uber, há dois meses.

Mas agora já prevê que pode ter de parar caso o desabastecimento continue. Já tem plano B: voltar ao comércio e trabalhar numa loja de semijoias. "Não dá, não posso ficar parado", afirma.

A falta de combustível é especialmente dura para quem depende do automóvel como meio de sustento. É o caso de Rafael Costa, de 30 anos, que também trabalha para a app e usa grupos de WhatsApp para saber e informar onde há gasolina. Abasteceu na manhã de sábado, pagou 3,89 reais (0,91 cêntimos de euro) por litro de etanol e ainda estava tranquilo na tarde de domingo.

Na dúvida, anda com três vasilhas na bagageira: se encontrar algum posto com gasolina ou etanol, pode garantir um extra.

Tenho filhos pequenos, não posso correr o risco de ficar sem comida

Em casa, também vai precaver-se. Nesta segunda-feira prometeu comprar "uns litros de leite e uns sacos de arroz". "Tenho filhos pequenos, não posso correr o risco de ficar sem comida", resume.

A motorista Lilian Tiemi, de 38 anos, estava com a luz da reserva acesa. "Logo vou para casa, não posso andar assim."

Gerson Rodrigues, de 32 anos, mora no centro de São Paulo, mas trabalha na zona leste da cidade, longe de qualquer metro. Trabalhar de casa não é uma opção: "Eu trabalho com seguros, visitando lugares. Se não puder circular, não trabalho", diz.

Já Luísa Gomes, de 18 anos, vai de casa, na Raposo Tavares, até à Avenida Paulista, onde frequenta o curso de preparação para o exame de acesso ao ensino superior, enquanto o pai tiver gasolina no carro. "Depois disso, é estudar em casa."

Os cafés da manhã da estudante Gabriela Apolo, de 22 anos, vão mudar esta semana. No mercado onde faz compras, na Bela Vista, não há mais batatas, cebolas, cenouras, chuchu ou lasanha congelada. Nem banana. "De manhã são duas bananas e granola", explica. "Vou substituir por uma tapioquinha."

Lá, um fenómeno chamou a atenção dos funcionários: "Ao mesmo tempo que não chega mais comida, as pessoas estão comprando mais, porque ficam com medo de acabar", resume o gerente. Como o mercado é parte de uma rede, há alguma maleabilidade com os stocks: produtos que vendem menos nalguma unidade são levados para onde forem mais requisitados, segundo o funcionário.

Consigo aguentar mais quatro ou cinco dias. Depois, vamos ver

O casal Andreia Almeida e Francisco Chagas também adaptou o prato. Dos outros. Eles têm um restaurante que atende estudantes de medicina na Santa Casa. A saída foi trocar a salada fresca por milho enlatado e grão-de-bico. O sumo de laranja natural, o mais pedido, vai ter que virar de polpa, congelada. "Consigo aguentar mais quatro ou cinco dias. Depois, vamos ver", afirma Andreia.

Mudança do mesmo tipo também deve ser feita no Food Truck em que António Ernesto, de 50 anos, trabalha. "Ainda bem que comprámos carne e pão logo antes da greve. Mas a batata encareceu. Devemos trocar por mandioca", conta, enquanto abastece a camioneta num posto de Pinheiros - com diesel, que ainda resta nalguns postos, já que os camiões e carrinhas pararam.

Há décadas José Robério Marques trabalha como comerciante em São Paulo, onde chegou nos anos 1970 vindo do interior do Ceará. Ele diz que percebeu a movimentação e resolveu preparar-se. "Sei como essas coisas funcionam. Há quantos dias estão parados? Sabia que ia faltar. Se normalmente peço um saco de batata, desta vez pedi três", afirma.

A estratégia não saiu barata e o aumento do preço passou para a clientela: a cebola, que custava 3,35 reais saiu a 6,30. A batata, de 3,80 reais, passou a 7 reais. Mas já há chuchu, repolho, mandioquinha, brócolos e morango, etc...

Já Celia Pollara, de 67 anos, está a usar o carro do filho, para poupar gasolina. Ela mora a seis quarteirões da loja de artigos usados que gere. Na terça-feira [hoje] já decidiu que vai a pé. "Na volta, à noite vou passar por uma rua mais movimentada, que aí não tem perigo."

"Hoje [ontem] comprei arroz, que é coisa que dura mais, e o que ainda havia no mercado, beringela, carne moída. Batata já não encontrei", resume.

Num posto de gasolina da região central da cidade, a última coisa de que o casal Katherine Anieri Ulian e Denix Claro queria ouvir falar era de combustível. No posto vazio e com bombas lacradas, aproveitaram para encher os pneus das bicicletas.

Katherine, professora de desenho, já percebeu que mais alunos faltaram ao longo da semana. Claro ressalva que a paralisação os afeta de qualquer maneira. "E se eu precisar de uma ambulância?"

A Prefeitura de São Paulo diz que o Samu [equivalente ao INEM] opera normalmente, assim como o transporte de vacinas e medicamentos. Os hospitais municipais estão abastecidos com oxigénio e diesel para os geradores. Cirurgias não urgentes que estavam marcadas para segunda [ontem], no entanto, terão de ser adiadas.

Jornalista da Folha de São Paulo

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