Turquia desafia aliados para intervenção terrestre na Síria

Ancara garante que não atuará de forma unilateral, mas defende ser "impossível" acabar com o conflito sem tropas no terreno. Arábia Saudita inicia manobras.

A Turquia advoga a necessidade de uma intervenção militar terrestre na Síria para pôr fim a um conflito de cinco anos que causou, segundo as agências das Nações Unidas, mais de 260 mil mortos. Mas essa intervenção deve realizar-se em conjunto com os outros países membros da coligação internacional que está a bombardear alvos do Estado Islâmico e outros grupos islamitas em território sírio.

Ancara já formalizou um pedido nesse sentido junto dos Estados Unidos e a outros países, indicou ontem um general turco citado pelas agências. Para este chefe militar, que se exprimiu a coberto do anonimato, "é impossível" acabar com o conflito sem um tal tipo de intervenção. Contudo, e apesar dos governos turco e saudita já terem manifestado disponibilidade para essa operação, "a Turquia não lançará, de forma unilateral, uma operação terrestre própria", garantiu o mesmo responsável militar.

No sábado, o ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Mevlut Cavusoglu, afirmou que o seu país e os sauditas consideram indispensável uma intervenção terrestre na Síria, e que efetivos de ambos os Estados estavam prontos para participarem numa operação desse tipo. Uma opção que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, não parece favorecer, tendo já assegurado que não haverá envolvimento de tropas americanas.

Decorrem neste momento manobras militares, organizadas pela Arábia Saudita sob o nome de código "Trovão do Norte" e envolvendo os Emirados Árabes Unidos, Jordânia, Bahrein, Senegal, Sudão, Koweit, Maldivas, Marrocos, Paquistão, Chade, Tunísia, Comores, Djibuti, Omã, Qatar, Malásia, Egito, Mauritânia e Ilhas Maurícias, apresentadas por Riade como o mais importante na região. As manobras são consideradas como uma clara mensagem para o Irão e os países que este apoia, afirma a maioria dos analistas ontem ouvidos por vários media árabes. E um dos países em que a presença de Teerão é hoje quase uma garantia de sobrevivência para o regime que o governa é a Síria, notam os mesmos analistas.

Por outro lado, os sauditas enviaram aviões de combate para a base aérea turca de Incirlik, para reforçar a sua capacidade de ataque no conflito sírio. Aviões sauditas retomaram, em dias recentes, as operações contra alvos no interior da Síria, o que foi saudado pelos EUA.

O cenário de uma intervenção terrestre no futuro previsível afigura-se improvável, devido à oposição dos EUA, mas o facto de ser defendida pela Turquia e Arábia Saudita - respetivamente, um dos principais adversários do regime de Bashar al-Assad e um dos maiores inimigos do principal aliado de Damasco, o Irão - evidencia como está a mudar a guerra civil na Síria, com a intervenção da Rússia e do Irão.

Avanço das forças de Damasco

De facto, no espaço de meses, o regime de Damasco recuperou terreno e volta a aproximar-se da fronteira comum com a Turquia. Ao mesmo tempo, as milícias curdas - a maioria das quais Ancara considera como grupos terroristas - têm vindo também a ganhar posições junto da fronteira turca. Em resposta ao avanço destes últimos, o exército turco tem vindo a bombardear as suas posições nos últimos dias, tendo Ancara ameaçado "com as mais sérias repercussões", se os curdos tomarem uma cidade junto da fronteira com a Turquia.

As forças fiéis a Assad continuam os ataques em torno de Aleppo, principal cidade do país, em poder da oposição. Se forem capazes de a reconquistar, retomariam igualmente o controlo de larga porção de território fronteiriço com a Turquia, pondo em causa a principal fonte de acesso a apoios pela oposição.

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