Trump usa "arma" militar para unir uma América dividida

Presidente lembrou militar morto, sob aplauso unânime. Não por acaso, o general Patton é a sua fonte de inspiração.

No primeiro discurso perante o Congresso dos Estados Unidos, Donald Trump conseguiu um momento de consenso na sua presidência - republicanos e democratas ergueram-se para aplaudir a intervenção quando mencionou o nome e comportamento de Ryan Owens, o militar americano que morreu numa operação contra a Al-Qaeda no Iémen, a 29 de janeiro.

"Ryan morreu como viveu: um guerreiro e um herói - a combater o terrorismo e a manter a segurança da nossa nação", disse o presidente após ter homenageado a mulher do militar, Carryn Owens, que assistiu ao discurso no camarote da primeira dama, tendo ao lado a filha mais velha de Trump, Ivanka. Claramente emocionada, Carryn Owens, mãe de três filhos, não escondeu as lágrimas ao ouvir o nome do marido, repetindo várias vezes a frase "amo-te" enquanto olhava para o alto. Carryn foi ovacionada durante quase dois minutos. Mesmo opositores irredutíveis de Trump, como Bernie Sanders, levantaram-se e aplaudiram as palavras do presidente neste ponto. Ainda que Sanders o tenha feito de forma breve.

A homenagem a Ryan Owens, elemento da unidade de Navy SEALs interveniente naquela que foi a primeira operação militar autorizada por Trump, era tão ou mais necessária do que a referência a dois polícias mortos em janeiro na Califórnia. O pai de Owens recusou encontrar-se com Trump, invocando "motivos de consciência", quando este se dirigia à base área de Dover, no Delaware, onde o corpo do militar seria entregue à família.

O impacto do discurso, realizado às 02.00 de quarta-feira (hora em Portugal continental), no Capitólio, pode avaliar-se por sondagens realizadas a seguir, com 76% dos inquiridos a terem uma opinião positiva ou muito positiva do que foi dito. Este o valor numa sondagem para a CBS News; uma outra, para a CNN, colocava o grau de aprovação nos 70%. Numa abordagem distinta, The New York Times ouviu seis americanos em que os três que votaram contra, insistiram que Trump "é um problema" enquanto os que votaram a favor o definiram como "um estadista".

Noutro plano, os mercados reagiram positivamente, com o Dow a ultrapassar, pela primeira vez na sua história, os 21 mil pontos. O aspecto decisivo terá sido o seu caráter "sólido", que veio colocar "Trump numa postura verdadeiramente presidencial", disse à CNN Money Nicholas Cage, analista principal da corretora ConverEx.

"Os desafios que enfrentamos enquanto nação, são imensos. Mas o nosso povo é ainda maior", disse Trump que, antes de citar o exemplo de Owens, prometera "aos homens e mulheres nas forças armadas dos EUA os instrumentos necessários para impedir a guerra e - se necessário - combater e ganhar". Nesta parte do discurso, o presidente sublinhou a ideia de que é indispensável "reconstruir" as forças armadas - uma ideia presente ao longo de toda a campanha, e que era uma obsessão do general George S. Patton (1885-1945), militar que Trump, reconhecidamente admira e tem como modelo e fonte de inspiração. O seu estilo de atuação espelha isso mesmo. No próprio comportamento de Trump encontram-se ecos de frases do general, como esta: "Comandem-me, sigam-me ou desapareçam do meu caminho". O seu comportamento integra também muitas das características do comportamento de Patton: agressivo, imprevisível, egocêntrico, mas determinado e brilhante.

Alguns preferem notar que Patton e Trump nasceram em famílias abastadas e ambos valorizam a vitória mais do que tudo.

Durante a campanha, e em anteriores ocasiões, Trump colocou no Twitter citações do general, que se distinguiu na I e II Guerras Mundiais, ou teve intervenções em que parecem ouvir-se muitas das declarações de Patton. Na fase final da campanha, quase todos os discursos do republicano continham uma referência a Patton e a outro herói de guerra Douglas MacArthur, recordava recentemente Jake Novak, da CNBC.

Além de citações diretas de Patton, Trump prestou-lhe homenagem implícita ao referir-se à escolha de James Mattis para dirigir o Pentágono, como "aquele que mais se parece com o general". A reputação de Mattis como militar é considerada inatacável e partilha com Patton o interesse pela História antiga como fonte de ensinamentos para os conflitos contemporâneos.

A escolha de Mattis reflete a importância que Trump concede aos militares. Além do Pentágono, um general tem a pasta da Segurança Interna, John Kelly, e um outro é conselheiro para a segurança nacional, Herbert McMaster.

Esta semana, numa intervenção de Trump quase se podiam ouvir as palavras de Patton. O caso sucedeu segunda-feira num encontro com governadores estaduais, decorrido na Casa Branca, em que afirmou: "Temos de recomeçar a ganhar as guerras. Quando eu era novo, todos diziam que nunca perderíamos uma guerra. Lembram-se? A América nunca perdia". Uma frase ecoa, quase palavra por palavra, aquilo que Patton diz na cena de abertura do filme de 1970 consagrado ao general, e protagonizado por George C. Scott.

Um biógrafo de Trump, Michael d"Antonio, explicava ao Politico, em dezembro, que o presidente "vive fascinado pelos militares desde que frequentou uma academia militar quando tinha 13 anos".

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