Trump quer meter muçulmanos todos numa mesma caixa

O 11 de setembro mudou a América e o mundo muçulmano, destapando um discurso de incompreensão entre uns e outros. O novo presidente americano carrega na tecla simples do "nós" ou "eles"

Há um antes e depois do 11 de setembro de 2001, o dia dos atentados que deixaram a América em estado de sítio. Há um antes e depois para americanos mas também para "os muçulmanos", uma entidade abstrata que esconde afinal muitas realidades. É contra "os muçulmanos" que Donald Trump tem exercido uma retórica simplista, traduzida numa ordem executiva que proibiu cidadãos de sete países de entrarem nos Estados Unidos (entretanto suspensa pelos tribunais).

Iémen, Irão, Iraque, Líbia, Síria, Somália, Sudão são os países do novo "eixo do mal" para a administração Trump, que justificou a medida como um "primeiro passo através de uma ordem executiva para assegurar que estamos a olhar para o sistema no seu todo, ou seja, de quem entra no país, de refugiados que querem entrar, de pessoas que chegam de lugares que têm um passado [terrorista] ou que os nossos serviços secretos sugerem que devamos ser mais cuidadosos".

A medida não provocou apenas arrepios nos cidadãos destes países apanhados em trânsito para solo americano, levantou também um clamor entre uma larga maioria de defensores das democracias liberais. "De repente, os muçulmanos tornaram-se párias da América", escreveu indignada a escritora sudanesa Nesrine Malik no jornal britânico The Guardian.

"A crescente islamofobia que testemunhámos na última década rompeu finalmente as suas margens", apontou. E nada serenou, insistiu esta sudanesa. "De repente, todas as certezas tremeram. Autorizações de residência, passaportes, green cards (visto de residência permanente), trabalhos, hipotecas, amigos, casamentos - tudo o que tínhamos como sólido contra a mobilização da máquina estatal se dissolveu. Somos apenas muçulmanos. E o que é que isto significa? É apenas uma etiqueta que desafia uma definição."

"Não existe "o muçulmano", é uma ideia homogeneizadora", concordou José Mapril, professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, que tem estudado as migrações e o transnacionalismo, a religião e secularismo e as diásporas do Bangladesh, entre outras áreas. Aquilo que se encontra nestas comunidades muçulmanas é antes, defendeu ao DN, "um espaço altamente fragmentado, uma realidade altamente complexa".

Há uma intencionalidade identificada pelo investigador do Centro em Rede de Investigação em Antropologia: "Continua-se a perpetuar a ideia de que são "um" e que os muçulmanos têm um problema, reforçando as teses racistas e islamofóbicas." E esta história não se fez apenas na última década, ou mesmo desde o 11 de setembro. Para José Mapril, "é uma história longa de construção contra os muçulmanos".

Enquanto se levantam estas ameaças, no espaço político e público dos EUA e da Europa, de uma alegada "incompatibilidade cultural" com os "valores europeus" ("o que quer que isto signifique"), "não se discute tudo o resto", nomeadamente o "racismo institucional" e as condições de vida e de trabalho destas populações, apontou José Mapril.

No meio deste caldo político e cultural, "Donald Trump mobiliza muitas destas agendas, sublima estes discursos, para não falar das desigualdades, falando diretamente para um eleitorado anti-imigração, islamofóbico, conservador", como apontou o professor.

Estas comunidades muçulmanas veem-se mergulhadas num "paradoxo", que é o de estarem permanentemente a terem de justificar atos de outros, só porque esses outros se identificam como crentes dessa religião. "A "culpa" é do próprio porque resulta da sua condição de ser muçulmano", identificou José Mapril. Ou, como se vê Faranaz Keshavjee, muçulmana, investigadora de estudos islâmicos: "Não existe um grupo chamado "os muçulmanos". Sim, há os muçulmanos que seguem o Islão, mas não somos todos iguais."

Ismaelita, Faranaz Keshavjee não recusa apenas esta homogeneização (ver entrevista ao lado), recusa ainda que haja uma "guerra de civilizações". "Não há uma guerra de civilizações, acho que há um desconhecimento profundo e um medo associado a esse desconhecimento. Somos profundamente ignorantes. Primeiro, do facto religioso, um assunto que não é tratado nem ensinado, nós não somos educados a conhecer o facto religioso."

Para combater Donald Trump e a deriva de confronto com as sociedades muçulmanas, a investigadora do ISCTE defendeu um "estudo comparado das religiões" porque a "discussão do choque das civilizações", de Samuel P. Huntington, serve para "camuflar aquilo que realmente acontece e tem que ser tratado, que é o desconhecimento, a ignorância e os medos criados pela ignorância".

José Mapril classificou de "ideia sinistra" a proibição de entrada de cidadãos de sete países. Afinal, como apontou o próprio Instituto CATO, uma instituição conservadora americana, nenhum terrorista que matou em solo dos EUA tem origem destes sete países. Vieram todos de países com quem Trump mantém negócios, notou o CATO.