Trump precisa de vitória por K.O. para poder travar Clinton

No último debate em Las Vegas, palco de históricos combates de boxe, republicano precisa de derrotar a democrata por knock-out

Depois de duas derrotas por pontos, Donald Trump chega ao terceiro e último debate presidencial com a necessidade de uma vitória sobre Hillary Clinton. Mas se quer inverter a tendência das sondagens, que dão à democrata clara vantagem, o republicano precisa de mais: precisa de vencer por knock-out. No seu canto terá como argumentos para atacar a adversária os emails do diretor de campanha dela, John Podesta, divulgados pela WikiLeaks. Mas, no canto oposto, Clinton poderá contra-atacar com as denúncias de conduta imprópria contra Trump e arranjar argumentos de última hora: ontem à noite estava prevista a estreia de um documentário crítico sobre o republicano, do realizador Michael Moore.

O debate desta noite nos EUA (a partir das 02.00 em Lisboa) é transmitido em direto a partir da Universidade do Nevada, em Las Vegas, e já foi apelidado de "noite de combate". Isto porque a capital do jogo costuma ser palco de históricos combates de boxe e porque os dois primeiros debates ficaram marcados pelos ataques pessoais entre os candidatos. Ao contrário do último confronto, onde graças ao formato de perguntas diretas dos eleitores indecisos, os candidatos puderam andar livremente pelo cenário (com Trump a "fazer sombra" a Clinton), desta vez ficarão atrás de um palanque, respondendo diretamente às questões do moderador, o jornalista da Fox News Chris Wallace.

"As vitórias de Clinton têm sido tangenciais, mas Trump precisa de tirar um coelho da cartola para conseguir chegar ao eleitorado de centro. Porque o ultraconservador esse já ninguém lhe tira", disse ao DN o professor catedrático de Estudos Anglo-Americanos da Universidade Aberta, Mário Avelar. "Creio que este debate será tão ou mais pessoalizado quanto os dois anteriores", indicou por seu lado Nuno P. Monteiro, professor de Ciência Política na Universidade de Yale.

Segundo Gerald F. Stieb, do The Washington Street Journal, "os debates feios têm por vezes a capacidade de diminuir a participação eleitoral ao afastar eleitores indecisos". Nesse caso, refere, Trump seria o mais beneficiado, "com base no cálculo que a maioria dos eleitores casuais que afasta agora do caminho iriam provavelmente votar em Clinton". Cerca de 84 milhões de pessoas assistiram ao primeiro debate e 66,5 milhões ao segundo.

Fraude eleitoral

O último argumento do republicano é alertar para o risco de fraude nas eleições de 8 de novembro, de forma a impedir a sua vitória. Ontem, o presidente dos EUA respondeu: "Convido Trump a deixar de choramingar e tentar defender o seu programa para conseguir votos", disse Barack Obama aos jornalistas, por ocasião da visita do primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi.

"Neste momento, Trump parece ter optado por uma estratégia de radicalização, do tudo por tudo, de descredibilizar o processo eleitoral e as instituições da república. Não é uma estratégia vencedora mas permite-lhe mobilizar a base", referiu Monteiro, lembrando que "quem não o abandonou até agora, com as centenas de gafes graves que cometeu, o estilo arruaceiro, as acusações de assédio sexual, etc., dificilmente o irá abandonar agora".

Mas na opinião de Avelar, tudo depende da estratégia que cada candidato apresentar. "Nesta altura ambos vão dar ênfase ao que têm sido as linhas de força de cada um. Trump apostará na revitalização da América, num discurso que não é conservador mas populista, centrado nos medos. Já Hillary voltará à tecla da experiência internacional", disse o professor catedrático.

Segundo Monteiro, a democrata "tem bastante margem de manobra porque está muito à frente nas sondagens". Mas, lembra o professor da Universidade de Yale, "não pode alienar a base", isto é, os apoiantes do antigo adversário democrata, Bernie Sanders, "nem fazer nada que abale a já ténue confiança que os eleitores têm nela".

E é aí que os emails de Podesta podem fazer mossa, revelando por exemplo o conteúdo dos discursos à porta fechada de Clinton para o banco de investimento Goldman Sachs ou os pormenores dos bastidores da campanha presidencial. "Se Clinton tivesse do outro lado um adversário como John McCain, as coisas seriam completamente diferentes", diz Avelar, acreditando que o tema dos emails que têm sido divulgados pela Wikileaks (e que a democrata ainda não comentou publicamente) serão usados hoje como arma de arremesso por Trump. "Há uma dimensão ética que é central em relação ao universo norte-americano", explica.

Convidados

Depois de no último debate ter convidado as alegadas vítimas dos abusos do ex-presidente Bill Clinton para a plateia, desta vez Trump terá como convidada Pat Smith, mãe de uma das vítimas do ataque terrorista de 11 de setembro de 2012 em Benghazi, Líbia, que acusa a então secretária de Estado de ser responsável pela morte do filho. "Hillary tem velcro para os problemas, Trump tem teflon", resume Monteiro, lembrando que o republicano "já sobreviveu a tantos erros que teriam sido fatais para qualquer outro candidato" que nada parece atingi-lo.

O moderador já revelou quais os temas que serão discutidos ao longo de 90 minutos - em blocos de 15 minutos. Dívida e direitos adquiridos, imigração (Trump terá oportunidade de voltar a falar do muro com o México), Economia, Supremo Tribunal (o próximo presidente terá que nomear um novo juiz, já que Obama não conseguiu fazer aprovar o seu candidato), temas-quentes internacionais e finalmente a preparação de ambos para irem para a Casa Branca. Mas, avisou Chris Wallace, o guião pode mudar.

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