Trump: "O sonho americano está de volta, mais forte do que nunca"

Casal Trump recebido como estrelas pop num pavilhão com 20 mil apoiantes em Orlando, Florida, no anúncio da recandidatura de Donald Trump. "Manter a América grande" é o novo lema de campanha.

É um presidente em modo ora belicoso, ora entertainer, a repetir ataques e fórmulas usadas antes (com sucesso), o que se apresentou no Amway Center no comício que marcou o anúncio de recandidatura. Donald Trump anunciou que "o sonho americano está de volta, mais forte do que nunca" no início do discurso de arranque da campanha das presidenciais de 2020. "Juntos nós enfrentámos um establishment político fracassado e restaurámos o governo do povo e pelo povo", disse. Depois de ter testado o novo lema da campanha, "Manter a América grande" (Keep America great), prometeu que nunca deixaria mal os seus apoiantes.

Ao fim de hora e meia de um discurso aparentemente sem linha condutora, Donald Trump despediu-se dos fãs com nova promessa: "Vamos continuar a lutar e vamos continuar a ganhar, a ganhar, a ganhar". Por fim, sai ao som de You can't always get what you want, dos Rolling Stones.

O homem que ocupa a Casa Branca fez uma série de elogios à situação do país e disse que os EUA terão "talvez a maior economia na história do país", para de repente mudar de tom e de tema e voltar ao tema que o assombra, as investigações sobre as relações da campanha Trump com os russos e a alegada obstrução à justiça. "Não houve conluio nem obstrução". No lugar onde mais gosta de estar -- debaixo de holofotes e com uma multidão a aplaudi-lo - disse ser vítima da maior caça às bruxas da história, "uma tentativa ilegal de reverter os resultados das eleições", queixou-se de ter sido espiado durante a campanha de 2016 e, depois de falar de Hillary Clinton (com a multidão a gritar "Prendam-na") disse que "ninguém tem sido mais duro com os russos", mas não explicou em quê.

Queixou-se dos ataques, durante as audiências no Senado, ao controverso juiz Brett Kavanaugh, e elogiou-o, bem como ao atual procurador-geral, William Barr. "Os democratas vão tentar dividir-nos mas não vão conseguir", disse, depois de misturar as investigações a si e ao seu círculo como se fosse um ataque ao povo. "Eles querem negar-vos o futuro que vocês exigiram e o futuro que a América merece." Em resposta, o público grita pela construção do muro com o México. E Trump reagiu, ao afirmar que o muro está a ser construído.

Minutos depois volta ao tema, criticando os democratas por quererem fronteiras abertas. "É moralmente reprovável". E voltou a acenar com o perigo que as fronteiras abertas representam para a segurança, dando como exemplo o gangue MS-13 (que em discursos antes já referira como "animais") por aterrorizar as escolas.

De regresso a 2016

Trump voltou a 2016 e à "desonesta Hillary", acusando-a de destruir 33 mil emails sem nada lhe acontecer. "Se apagar um email romântico que enviei à Melania vou parar à cadeira elétrica."

Atacou Barack Obama e Joe Biden pelo sistema de saúde que ficou conhecido como Obamacare e por não terem atacado o défice comercial com a China. E sobre isso disse que falou o presidente Xi Jinping e que quer chegar a um acordo. Mas se não houver "tudo bem", porque -- diz -- as empresas estão a sair da China devido às taxas aduaneiras e que os empregos estão a voltar aos EUA.

Também reservou uma palavra para o "louco" Bernie Sanders, outro candidato democrata.

Ainda sobre as políticas comerciais, criticou os tratados como o NAFTA e o Tratado Transpacífico e elogiou o novo acordo com o México e o Canadá, que trará 75 mil novos empregos, afirma.

Sobre o desemprego, Trump afirma que os EUA têm a mais baixa taxa de desemprego de sempre -- está nos 3,6%. Na realidade, a taxa historicamente mais baixa registou-se em 1953, com 2,5%.

Depois de agradecer à sua família e ao seu pessoal, bem como a presença de políticos como Lindsey Graham ou Marco Rubio, Trump chamou ao palco Sarah Sanders, "uma guerreira". A porta-voz da Casa Branca, que está de saída, foi recebida de forma entusiástica. Sanders voltou a elogiar o presidente e augurou mais "seis anos incríveis" para Trump.

Aos gritos de "USA!", milhares receberam o casal Trump. Foi Melania, vestida de amarelo, quem agradeceu aos presentes e disse ser uma honra ser a primeira-dama. Despedida Melania com dois beijinhos, Trump começou logo por criticar a comunicação social, ao exclamar a afluência no Amway Center, em Orlando, Florida. "Se houvesse três ou quatro lugares vazios iam logo atacar-nos."

Horas antes do comício, milhares de pessoas já faziam filas nas cercanias do pavilhão, apesar do calor e da humidade. Os apoiantes denunciavam ativistas anti-Trump ao repetir três vezes o nome do presidente.

Segundo round

Antes de Donald Trump, coube ao vice-presidente aquecer os ânimos dos republicanos. "É altura para o segundo round", anunciou Mike Pence. Começou por lembrar que o presidente cumpriu promessas como erradicar o Estado Islâmico, baixar os níveis de crime violento, de ter baixado o nível de desemprego para níveis históricos ou dos "investimentos históricos pela segurança da fronteira do sul".

Depois de ter garantido que "os EUA nunca irão ser um país socialista", e ter dito que são necessários mais quatro anos para "secar o pântano", expressão pejorativa sobre Washington, disse: "Este presidente fará uma América maior do que nunca."

Um longo dia

O dia de Donald Trump já ia longo quando chegou a Orlando. De manhã cedo começou por reagir ao anúncio feito pelo presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, em Sintra, de que poderá haver novos estímulos como o corte nos juros. "Mario Draghi acaba de anunciar que mais estímulos podem ocorrer, o que imediatamente causou a queda do euro frente ao dólar, tornando injustamente mais fácil para eles competir contra os EUA. Eles têm conseguido fazer isso há anos, juntamente com a China e outros", queixou-se no Twitter.

Minutos depois voltou ao tema, ao informar que os mercados europeus estavam em alta devido aos comentários de "Mario D".

Duas horas depois, Trump anunciou ter mantido uma "boa conversa ao telefone" com o homólogo chinês, Xi Jinping, e que terão uma "reunião longa na próxima semana no G20", que vai decorrer no Japão. "As nossas respetivas equipas irão iniciar conversações antes da reunião". A Casa Branca iniciou uma guerra comercial com Pequim ao introduzir taxas nas importações de produtos chineses, medida que tem sido contra-atacada de parte a parte numa escalada no montante afetado. Trump tem prometido um acordo comercial com Xi Jimping.

Ainda no Twitter, agradeceu ao secretário da Defesa interino, Patrick Shanahan, que anunciou não se candidatar ao cargo para passar mais tempo com a família. Shanahan teria vida difícil nas audições do Senado. Segundo o USA Today, a ex-mulher acusa-o de violência doméstica.

E aproveitou para anunciar a substituição deste homem que não tinha experiência com assuntos de defesa pelo secretário do Exército, Mark Esper.

Fora da esfera da rede social, foi publicada uma entrevista à Time, na qual garantiu que iria considerar uma "resposta militar para prevenir o Irão de obter armas nucleares". Mas minimizou o impacto do ataque aos dois petroleiros, que o Pentágono diz ter sido obra de Teerão, e deixou em dúvida se iria intervir se o Irão bloqueasse o estreito de Ormuz e, com isso, o fluxo de petróleo e gás. "Iria manter um ponto de interrogação", disse. À saída da Casa Branca, disse sobre o tema: "Estamos muito preparados para o Irão. Vamos ver o que acontece."

Ainda no relvado da residência oficial, Trump comentou o anúncio que fez na noite anterior, no Twitter, sobre a expulsão de "milhões" de imigrantes em situação ilegal. "Vão ser removidos tão rapidamente quanto entram", prometeu. Respondendo a um jornalista que disse que os oficiais de imigração não sabiam sobre o seu plano de ação, Trump disse na terça-feira: "Eles sabem, eles sabem. Eles vão começar na próxima semana."

"A nova ameaça do presidente de uma avalanche de deportação em massa é um ato de total crueldade e fanatismo, projetado exclusivamente para incutir medo nas nossas comunidades", comentou a líder da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi. Há cerca de 12 milhões de imigrantes em situação ilegal nos Estados Unidos, oriundos principalmente do México e da América Central.

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